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If I’ve seen further than others, it’s by standing upon the shoulders of giants‘. (Newton)

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Havia mais estradas a percorrer. Mais histórias a se contar, mais gargalhadas que daríamos. Gargalhadas da sociedade ridícula em que vivemos, de nós mesmos. Coisas das quais nos lembraríamos em nossa velhice, distorcendo detalhes, já no fim de alguma dessas estradas.

Mas você escolheu não envelhecer. Se é que foi escolha. Foda-se. O que quer que tenha sido, foi sua. Respeito. Cabe-me agora recolher e carregar, sozinho, essa bagagem abarrotada de planos, mesmo sabendo que a maioria deles jamais deixaria de ser planos. Foda-se também. A diversão, afinal, era carregá-los, fingir que um dia cruzariam a fronteira da utopia.

Porque alguns deles ficaram pelo caminho, caíram em algum rio, foram levados por alguma ventania. Mas outros frutificaram. Permanecerão comigo por um bom tempo durante a caminhada. Em livros, discos, paisagens, rostos amigos, tudo o que você me proporcionou e que me cerca impiedosamente por todos os cantos de casa. Foi um privilégio partilhar deste lapso de tempo e espaço, um privilégio sem o qual eu seria infinitamente menor.

Por isto, uma parte de mim também morre. Um mapa a menos. Terei que dar meia volta e olhar pra trás todas as vezes em que me sentir perdido. Mas é preciso seguir caminhando. Afinal, aprendemos, para isto servem as utopias: fazer-nos caminhar.

 

Não é só perseguição ao PT, não é só o pré-sal. Periferia é periferia.

No fim dos 90, os EUA consolidam a Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), emendada e remendada para criminalizar suborno envolvendo companhias estadunidenses ou estrangeiras operando em solo ianque.

Mas num mercado globalizado, regras comuns a todos, como concorrer com empresas pós-graduadas em propina, como os conglomerados brasileiros?

A aurora do novo século revela um Brasil infiltrando-se nesse mercadão via megaempreiteiras, BNDES, Petrobras – esta última representando quase 15% do PIB nacional. E, historicamente, leis brasileiras jamais impediram a corrupção de florescer em nossos jardins. Obama nos vê como ameaça. É preciso chamar o Brasil na chincha.

Fomos, então, integrados à Cooperação Internacional – organização mundial de procuradores e polícias para combate ao crime organizado. Encabeçada pela Casa Branca, pois.

Conscientes ou não, os governos petistas aderiram à estratégia gringa, viabilizando lei anticorrupção própria, a primeira exclusivamente voltada ao tema.

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Enquanto Dilma assinava os papéis, a inteligência ianque buscava falhas em nossa cerca.

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Braço do império, a mídia nativa encampa o discurso anticorrupção. O telespectador torna-se jurista. Encabeçados pela Rede Globo, veículos de massa exibem manifestantes nas ruas pela derrubada da PEC 37, a que proibia procuradores de realizar investigações por conta própria. Desfile exótico, teleguiado.

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Colhendo frutos do suporte ideológico, os norte-americanos disponibilizam ao brasileiro um canal específico de caguetagem. O plano funciona.

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A dobradinha com a mídia, tanto quanto o ataque à classe política, integram a estratégia da Lava-jato. Assim aponta o juiz Sergio Moro no artigo Considerações sobre a Operação Mani Pulite – revista CEJ, nº 26, julho/setembro de 2004). Moro, treinado pelo Departamento de Estado Americano, adota a operação Mãos Limpas na Itália como norte, assinalando que a deslegitimação da classe política “foi essencial para a própria continuidade da operação mani pulite” (p.57), e que “a punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos” (p.61).

Após Collor, Demóstenes, Barbosa, Ishii, a imprensa tem novo herói, enterrando o longínquo caso Banestado, investigado pelo próprio Moro.

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Mas além do magistrado, a Lava-jato traz de volta à luz outra figurinha carimbada: Alberto Youseff, doleiro-operador do esquema Banestado. Absolvido por Moro pós acordo de delação, permaneceu como coringa na manga do sistema. Era parte do plano que ele voltasse a delinquir.

No artigo, Moro cita um sine qua non da operação Mãos Limpas: “a integração europeia, que abriu os mercados italianos a empresas de outros países europeus, elevando os receios de que os italianos não poderiam, com os custos da corrupção, competir em igualdade de condições com seus novos concorrentes” (p.57). Eis o cerne. A Lava-jato é uma das jogadas globais do império norte-americano para salvar sua economia em débâcle, montando um aparato jurídico-midiático para romper o cerco brasileiro ao redor do lucrativo setor de infraestrutura. A operação põe as empresas à mercê das cortes estadunidenses, abrindo aos gringos um mercado bilionário, dentro e fora do Brasil, antes dominado por conglomerados brasileiros via suborno.

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O golpe na economia nacional e o desgaste da classe política mergulham o país numa ingovernabilidade que reverbera nos parceiros de Mercosul, de BRICS. O caos traz de volta ao planalto velhos aliados do império. A roda da história dá novo giro. Os ventos do norte movem, sim, moinhos. E balançam a forca.

 

 

 

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O Vem Pra Rua é de Rogério Chequer. A mídia diz que Chequer ganha a vida fazendo apresentação de Powerpoint. Consta que Chequer é investidor em Wall Street e tem, ou tinha, uma mansão em NY que custa US$ 1,7 milhão.

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Chequer diz que o Vem Pra Rua vive de pequenas doações espontâneas. Consta que o domínio do site pertence à Fundação Estudar, que é de Paulo Lemann, que é dono da Ambev.

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Chequer também figura numa lista de membros da Stratfor Forecasting, empresa de espionagem que trabalha para o governo norte-americano e faz tabelinha com o Instituto Fernando Henrique Cardoso. É ainda parceiro de palanque de José Serra, que por sua vez já garantiu à Chevron que o regime de partilha vai acabar. A Chevron é concorrente da Petrobras.

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O Movimento Brasil Livre é de Kim Kataguri, colunista da Folha de S. Paulo. O MBL declara-se apartidário, integra a supranacional, mas norte-americana Atlas Network, presidida por Alejandro Chafuen. Chafuen é parceiro de protesto de Fábio Ostermann, diretor do Instituto Liberdade e Koch Summer Fellow da mesma Atlas Network. “Koch” porque a Atlas é bancada com grana da Cato Institute e da Charles G. Koch Charitable Foundation, entidades da família Koch.

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Chafuen e Ostermann

Os Koch têm muita grana, mas a Atlas também recebe grana da Exxon Mobil, dos Rockefeller. A Exxon é concorrente da Petrobras.

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Também está na teia da Atlas o Estudantes pela Liberdade, placenta do Movimento Brasil Livre. O Estudantes pela Liberdade é truta da Fundação Friedrich Naumann, que apoiou o golpe de Estado em Honduras.

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O Estudantes pela Liberdade foi fundado por Anthony Ling, sobrinho de William Ling, dono da Évora SA. A Évora banca o Instituto Millenium, junto com Merril Lynch, Grupo Abril, Globo, Estadão. Integram o Millenium Marco Antonio Villa, Bolivar Lamounier, José Nêumanne Pinto e Helio Beltrão.

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Marco Antonio Villa

Beltrão é presidente do Instituto Ludwig Von Mises, filho do Beltrão ex-ministro de Costa e Silva, ex-presidente e acionista do Grupo Ultra de Henning Boilesen.

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Sergio Fernando Moro é o mesmo juiz do caso Banestado, que há uma década livrou a barra de tucanos, Globo, Abril. Sergio recebe orientações dos EUA e é casado com Rosângela Moro, que trabalha, ou trabalhou, na Zucolotto Advogados, de Carlos Zucolotto, amigo de Moro.

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A Zucolotto tem entre seus clientes a Helix Brasil, marca de lubrificantes pertencente à Royal Dutch Shell. A Shell é concorrente da Petrobras.

 

Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. (George Santayana – Vida da Razão, 1905).

1888. Pedro II viaja ao exterior. A regente Princesa Isabel assina a Lei Áurea. O Brasil era o único no continente a manter escravos. A cúpula da monarquia vislumbrou negros livres como trabalhadores assalariados e, consequentemente, consumidores, em consonância com a revolução industrial. Agradou aos ingleses, desagradou à Casa Grande escravista. Cafeeiros exigem indenizações pelos prejuízos que a abolição lhes causara. Ignorados pelo imperador, aderem ao movimento republicano. Naquele fim de século 19, o café brasileiro tinha nos Estados Unidos seu principal consumidor. Qualquer impacto na produção da commodity ressoava no irmão rico do norte.

Mais uma audácia do imperador poliglota que gastava dinheiro em fortalezas, bancava estudos de brasileiros no exterior, perdia tempo concedendo audiência a cidadãos comuns. Ele já avisava: “Sem educação generalizada nunca haverá boas eleições”.

Jornais republicanos o atacam. Ele aceita as críticas, assim como aceitava a existência de um partido republicano num regime monárquico. A oposição era liderada por Rui Barbosa, que anos mais tarde queimaria os registros de escravos e arruinaria a economia da República na crise do encilhamento.

No ano seguinte, a monarquia organiza o Baile da Ilha Fiscal, com o requinte costumeiro, para comemorar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde D’Eu. 9 de novembro, ilha decorada, iluminada, mobília nova. Os jornais retratam a festa, frequentada por quem “só tem vivido de corrupção, pela corrupção e para a corrupção“.

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O Baile da Ilha Fiscal, de Francisco Figueiredo

Uma semana depois, os golpistas proclamam a República, mesmo com apenas um deputado republicano eleito para o congresso.

Na madrugada, militares entram na residência oficial, levam a família imperial ao porto e embarcam-na para a Europa. Pedro II perdera a utilidade. Morreria em Paris 2 anos mais tarde. Seu último pedido estava num bilhete, junto de um pacote lacrado em seu quarto: “É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”.

Um governante é refém de seu tempo, da sociedade que representa. Pedro II era um amante das letras governando um país de analfabetos.

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Com o imperador fora de combate, uma “comissão de cinco membros, sob orientação de Rui Barbosa, elaborou a nova Constituição, uma cópia mais ou menos fiel da americana. Instituiu-se o federalismo. O país passou a chamar-se Estados Unidos do Brasil”. (Luiz Alberto Moniz Bandeira – Presença dos Estados Unidos no Brasil, 1972).

Não acredito que na fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas“. (Graça Aranha – Canaã, 1902)

1930. A Aliança Liberal liderada por Getúlio Vargas dá um golpe na República e assume o governo. Para governar de fato, fecha o congresso, ergue o Estado Novo. Cria o Departamento de Imprensa e Propaganda para manter jornais na coleira. Cria CLT, Justiça do Trabalho, salário mínimo, carteira profissional, férias remuneradas. Permite o voto às mulheres. Funda a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a hidrelétrica do São Francisco, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A Casa Grande se revolta. Porque, neste novo estado, a União não mais compraria os estoques de fazendeiros mineiros e paulistas a cada queda internacional do preço do café. O prejuízo da oligarquia cafeeira seria só da oligarquia cafeeira. Mesmo com o apoio do consulado americano, São Paulo fracassa em sua primeira tentativa de golpe em 1932. Mas sai vitorioso na segunda, em 1945. O Brasil não vive muito tempo sem um golpe de Estado. Vargas é deposto pelo Exército, impedido de se candidatar às eleições e isolado no interior gaúcho.

Os “braços do povo” conduzem o caudilho ao governo novamente em 1950. Ele retoma o projeto nacionalista. Começa a campanha “O Petróleo é Nosso”, impedindo estrangeiros de explorar o petróleo nacional. Nasce a Petrobras. Os Estados Unidos se irritam com a teimosia, seus estudos já haviam alertado não haver petróleo no Brasil.

Num ato ousado, Vargas limita em 10% as remessas de lucros de empresas estrangeiras às matrizes. A imprensa ataca, em parceria com a UDN de Carlos Lacerda: o governo é corrupto e nepotista.

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Atentado em 54, Lacerda leva um tiro no pé. O major da Aeronáutica Rubens Vaz, seu segurança, morre. O autor dos tiros, Alcino João do Nascimento, era ligado à guarda pessoal de Vargas. O inquérito policial acaba transferido para a Aeronáutica. O Estado Novo dá lugar à República do Galeão. Os militares exigem a renúncia, o palácio presidencial é cercado. Vargas dá um tiro no peito. Era um visionário à frente de uma horda de cegos.

Café Filho assume e volta a liberar o fluxo de capitais pelo país. O FMI desembarca no Brasil com o Relatório Bernstein e a cantilena do mercado livre. O sistema sorri.

Tem valor decisivo mesmo para o povo compreender que o Brasil é uma nação dominada  econômica e politicamente por outras nações. Sem alcançar isto o povo  brasileiro não conseguirá compreender profunda e realmente nada do que se  passa na sua vida interna e nas suas relações internacionais”. (Wanderley Guilherme dos Santos – Quem dará o golpe no Brasil, 1962)

1964. Mas o nacionalismo é um ideal. Ideias não morrem. E lá está novamente, à frente do país, um homem propondo aumentar a participação do Estado na economia, reforma agrária, urbana, bancária, ampliação de direitos trabalhistas. O fantasma de Vargas recusa-se a deixar o palácio presidencial.

O Congresso tentara alijar João Goulart, mas um plebiscito no ano anterior havia restaurado o regime presidencialista. O Ibope apontava o presidente favorito para vencer as eleições seguintes. “O Brasil estava irreconhecivelmente inteligente” (Roberto Schwarz – Cultura e política, 1964-1969), apesar da recessão econômica.

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A metrópole perde a paciência, inicia-se a Operação Brother Sam. A imprensa brasileira faz o que sempre fez.

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Em pouco tempo, a secular linhagem de iletrados e entreguistas toma as ruas de São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

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Em 1º de abril, militares assumem o comando. Goulart acaba exilado no Uruguai, morre 12 anos depois, na Argentina, em circunstâncias ainda suspeitas. Era um nacionalista sem uma nação.

No período militar, o sistema dispensa a fantasia. Assassinatos, tortura, desaparecimento, prisões. Banqueiros, empresários,  e grupos de mídia bancam financeira e operacionalmente os crimes. O Grupo Folha empresta seus carros para captura de opositores à ditadura.

O fim do governo Goulart ratifica a subalternidade brasileira às nações hegemônicas, potencializando o entreguismo. A dívida do país, neste intervalo, sobe de U$ 2,5 bilhões para mais de U$ 100 bi (Reinaldo Gonçalves e Valter Pomar – O Brasil Endividado, 2000). Para prolongar a vida útil da ditadura, extingue-se as disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino médio. Iletrados diplomados cresceriam em progressão geométrica.

Quando o governo militar perde sentido, concebe-se a distensão lenta, gradual e segura para o “regime democrático”. Mas o sistema permanece com a estrutura intacta, disponível para casos emergenciais.

No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do Vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes – Janio Quadros e João Goulart – antes que o Marechal Castelo Branco, que tomou o poder em 1964, os cedesse a Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do Embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-51) tinha concedido à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os quarenta milhões de toneladas do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, em troca de pouco mais de um por cento para o Estado Brasileiro sobre as rendas de exportação”. (Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina, 1970).

2016. O governo do Partido dos Trabalhadores acreditou não ser besta pra tirar onda de herói. Aproveitou a demanda mundial por commodities para crescer o PIB, trocando os EUA pela China como principal parceiro. Conseguiu aumentar a renda do trabalhador, tirou o país do mapa da fome. Mas sempre flertando com a Casa Grande, abraçado com velhas oligarquias, de braços dados com empreiteiros criminosos, mantendo o rentismo a consumir metade do orçamento nacional. Tentativas de não reativar o sistema.

O flerte se estende ao punhado de famílias controladoras de informação. Eleito, Lula concede exclusiva ao Fantástico. Incrivelmente, ele a Globo parecem amigos. Mesmo após Miriam Cordeiro,  após Abílio Diniz. Mesmo após o debate de 89, a ficha falsa de Dilma, a campanha do mensalão.

A imprensa assume o golpismo publicamente, “fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada“.O ministro que conhece as entranhas da mídia avisa da necessidade de uma regulação. O PT não ouve, mantém os golpistas bem alimentados com bilhões dos cofres federais, renova a concessão da Globo apesar da dívida de R$ 600 milhões ao fisco, da programação sofrível.

Mas nem todos os agrados conseguem esconder a proteção ao pré-sal. O governo anterior deixara a Petrobras empenhada ao FMI, o PT ousou interromper o processo de entrega. A espionagem americana, as correspondências entre José Serra e a Chevron, o processo na corte americana, a tentativa no Senado de tirar a participação da Petrobras dos poços descobertos, eram avisos claros: o petróleo não é de vocês.

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O governo bate o pé, põe o pré-sal sob regime de partilha, vincula seus royalties à Educação. Denuncia a espionagem norte-americana, inicia a construção de um submarino nuclear, compra caças da Suécia com transferência de tecnologia, constrói cargueiro militar para concorrer com o Hercules.

O Brasil não vive muito tempo sem um golpe. O PT quis enfrentar o sistema sem desmantelar sua estrutura. Dilma foi presidente honesta de uma gente desonesta desde o berço. Um governante é refém de seu tempo. A qualquer tempo. A História bate à porta.

Muito antes das reservas de petróleo serem exauridas, a maioria dos países não terão mais acesso a elas, mesmo se localizadas em seus territórios. Elas passarão a ser controladas por forças militares das potências hegemônicas para garantir-lhes o suprimento necessário, enquanto dure”. (J.W. Bautista Vidal – O Esfacelamento da Nação, 1994)

 

Ato 1:  o maior banco do continente injeta R$ 7,75 milhões na campanha da candidata a presidente, usando recursos de seus tentáculos: leasing, previdência, seguros.

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Na vaquinha eleitoral entram também bancos menos conhecidos, mas que igualmente se beneficiam da política econômica rentista adotada pelos sucessivos governos brasileiros: BTG Pactual, Itaú, Safra.

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Ato 2: a candidata, agora presidente, entrega a um dos diretores desse grande banco a Fazenda, ministério em que o mesmo já trabalhara em governos anteriores.

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Ato 3: no comando da economia nacional, o diretor do grande banco entoa a cantiga do ajuste fiscal: corta o investimento público, o crédito, aumenta impostos, eleva os juros. Em seus 12 meses de Fazenda, a arrecadação federal cai, o desemprego e a inflação aumentam, o país mergulha de cabeça na crise.

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Ato 4: Estrago feito, o diretor do grande banco deixa o governo. E, ao invés de críticas, recebe a diretoria do Banco Mundial. ‘Ao pó voltarás’, já que constavam em seu currículo passagens por BID e FMI. Afinal, apesar dos milhões de desempregados, da perda do poder de compra do trabalhador e da competitividade do país, o grande banco e todos os outros que ajudaram a candidata a se eleger estão mais prósperos do que nunca. Missão cumprida.

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A Turquia mantém, na fronteiriça Sanliurfa, um hospital para, oficialmente, atender vítimas dos combates na Síria.

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Abu Yusaf, combatente do ISIS, se empolga com os repórteres do Washington Post. Dá com a língua nos dentes.

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Cogita-se que o hospital tenha supervisão direta de Sümeyye Erdoğan, filha do presidente turco, Recep Erdogan.

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A mesma Sanliurfa já abriga um campo de treinamento da Al Qaeda.

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Em outra frente, os turcos resguardam o contrabando de petróleo extraído de regiões sob domínio do ISIS. O óleo cru é embarcado em Ceyhan e segue para Israel ou Malta, onde é revendido a compradores europeus.

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Coincidentemente, o grupo de transporte marítimo BZM, sediado em Malta, comprou neste ano dois navios-tanques para transporte de petróleo. O BZM pertence a Bilal Erdogan, também filho de Recep Erdogan.

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Bilal recebe doações internacionais por meio de uma ONG para educação de jovens, a Türgev.

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Socorrer feridos, dinamizar o comércio petrolífero e educar a rapaziada custa dinheiro. Felizmente, a Turquia tem amigos.

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Qualquer um que mate um ser humano, será como se tivesse matado toda a humanidade; e qualquer um que salve a vida de um ser humano, será como se tivesse salvo a vida de toda a humanidade”. (Alcorão 5:32)

Afeganistão, 1979. O ocidente quer guerra. Numa estratégia para derrubar o governo local, pró-soviético, Estados Unidos e Arábia Saudita – com US$ 20 bilhões cada – financiam grupos muçulmanos radicais, a Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão. Operação Cyclone. Emerge entre as lideranças rebeldes o jovem milionário saudita Osama Bin Laden, cuja família compartilha negócios com os Bush, George e Walker.

A Arbusto Oil de Dábliu (Bush) foi fundada em 1997, dentre outros, por James R. Bath, cujo investimento na verdade representava os xeiques Salim Bin Laden e Khalid Bin Mahfouz“. (Greg Palast – A melhor democracia que o dinheiro pode comprar).

O governo afegão cai, os EUA ganham terreno. Washington e o Ocidente celebram os “guerreiros da liberdade“. Os soviéticos deixam o Afeganistão em 1989. “Um ano depois, sauditas de túnicas brancas começaram a aparecer nas capitais das províncias em vilas afegãs devastadas. Eles se proclamaram emires. Compraram a lealdade de líderes das vilas e começaram a construir pequenos impérios. Eram emissários de uma nova força no mundo que viria a ser chamada de Al Qaeda“. (Tim Weiner – Legado de Cinzas, uma história da CIA).

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Ronald Reagan recebe os talibãs no salão oval da Casa Branca, 1983

Serviço concluído, Bin Laden volta à caverna, de onde só sairia em 11 de setembro de 2001.

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Iraque, 1980. Com dinheiro e inteligência norte-americanos, o presidente Saddam Hussein usa armas químicas contra o vizinho Irã, que no ano anterior desmantelara uma rede de espionagem ianque, sitiando os espiões na embaixada local.

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Donald Rumsfeld, enviado da Casa Branca, e Saddam, 1983

Saddam manteve o governo iraniano ocupado por 8 anos. Porém, armado e tomado pela megalomania, quis aumentar sua produção de petróleo sem o consentimento dos padrinhos.

Os EUA querem guerra. Inventa-se a história das armas químicas. A massa acredita. A OTAN invade o Iraque, mata Saddam, dissolve suas forças armadas e policiais.

***

Síria, 2011. Nação em rara e relativa paz no Oriente Médio. Estado laico, apesar do furor de sua população sunita, xiita, cristã, judaica. Um povo assentado sobre 2,5 bilhões de barris de petróleo, 100% estatal.

Mas o ocidente quer guerra, porque Bashar al-Assad é um ditador – apesar de presidir um regime parlamentarista, com eleições periódicas. A massa acredita. A Síria entra na lista das primaveras, as revoluções contemporâneas de laboratório.

Para armar os rebeldes, a OTAN conta com ajuda da Arábia Saudita. Esta sim, democracia autêntica, que corta a cabeça de opositores, açoita blogueiros e vítimas de estupro.

Unidos aos sauditas, Estados Unidos, França e Turquia financiam um exército de mercenários multinacional, constroem rede logística, doam-lhes armas e veículos, mesmo que clandestinamente. A eles juntam-se militares e policiais de Saddam, enxotados pelo novo governo fantoche instalado no Iraque. Adicione a este caldo combatentes da Al Qaeda, também produto norte-americano. Eis um novo califado no coração do Oriente Médio: o Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Florescem as sementes plantadas por Estados Unidos e aliados.

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Síria, 2015. A Rússia pisa no jardim da OTAN. Quer evitar a queda do aliado al-Assad, manter suas bases militares na região, proteger o gasoduto que ligará o Irã ao Mediterrâneo, mantendo-o longe das petrolíferas ocidentais. Os russos mapeiam o contrabando de petróleo, a entrada de armas pela fronteira turca. Em duas semanas, atacam instalações do EI e devolvem cidades ao governo sírio. Fazem o que a OTAN, em sua falsa luta contra o EI, não conseguira em três anos.

A máscara cai. Neste 24 de novembro, a Turquia derruba um caça russo em território sírio. O apoio ao Estado Islâmico deixa de ser apenas logístico. Mais uma provocação, depois da golpe na Ucrânia, das sanções,  da Resolução 758.

A OTAN quer guerra porque não sobrevive sem ela. A guerra é a razão de sua existência, está no DNA de seus países-membros. A maior economia do ocidente movimenta, por ano, mais de US$ 600 bilhões em armas. R$ 2,4 trilhões. Meio PIB brasileiro.

A França, ora objeto de todas as comoções, gasta US$ 62 bi com guerra/ano. Em seu rastro de invasão e pilhagem, além da própria Síria, consta uma lista infinita: Haiti, Saint Martin, Guiana Francesa, Marrocos, Tunísia, Camarões, Argélia, Senegal, Costa do Marfim, Togo, Mali, Polinésia. O governo François Hollande diz ser vítima. A massa acredita.

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Para a maioria das pessoas, uma informação é verdadeira quando todos os meios de comunicação afirmam que ela o é; se a rádio, o jornal, a televisão e a internet divulgam a mesma coisa, nós a aceitamos porque, intuitivamente, a repetição serve como prova de veracidade. Mas a repetição não é uma demonstração, ela é uma repetição”. (Dênis de Moraes, Ignacio Ramonet e Pascual SerranoMídia, Poder e Contrapoder)

Crise, mais uma, em tempos de economia globalizada. Uma classe dirigente preocupada com o alto custo de seus trabalhadores, causa direta da perda de sua competitividade internacional.

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África, continente devastado por 5 séculos de colonialismo. A Líbia devolve às praias italianas o produto de sua pilhagem. O Congo, matéria-prima para toda futilidade contida em nossos celulares. Mali, Costa do Marfim, tragados pela indústria do chocolate. Síria e Iraque, vítimas das revoluções fabricadas pela OTAN, do Estado Islâmico made in USA.

Capitalismo, uma cajadada, dois coelhos: pela força das armas, barateia-se matéria-prima e aumenta-se a oferta de mão de obra pelo mundo globalizado.

Subitamente, um foto molda as consciências. A imagem do menino branco, em trajes ocidentais, morto numa praia grega, toca o coração dos consumidores de notícia brancos, ocidentais. Não lhes importa as crianças que morrem assassinadas na esquina ou outras 19 mil que morrem de fome todos os dias. O drama secular dos refugiados ganha, enfim, os holofotes da opinião pública. A mídia e o eterno reflexo condicionado.

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Num passe de mágica, a Europa se sensibiliza e abre as portas aos imigrantes. Emerge das sombras uma ONG da qual nunca se ouviu falar, mas que envolve 150 países e movimenta algumas centenas de milhões de dólares. Talvez isto ajude a elucidar como uma migrante da Eritreia, onde a renda per capita não passa de US$ 200, consegue 7 mil euros para chegar à costa líbia.

Debaixo do sol/ não há nada novo/ não seja bobo/ meu rapaz.

Made for minds.

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Um sistema econômico nacional não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo”.
(Celso Furtado – Brasil, a construção interrompida, 1992)

O Partido dos Trabalhadores chega a seu quarto quadriênio de presidência incorporando inteiramente o ideário neoliberal. O manto da esquerda, sob o qual se escondeu durante o período eleitoral, é descartado. Em nome da manutenção do poder, a sigla cumpre as exigências finais do capital especulativo, cortando investimentos para crescer o bolo do superávit primário que alimenta a dívida.

Sem mais disfarces, a economia é posta sob controle de um Chicago Boy que tem no currículo passagens por FMI, BID, governo FHC e, finalmente, Bradesco – um dos maiores financiadores da campanha Dilma Rousseff e player da dívida brasileira.

Anuncia-se o ajuste fiscal: corte de investimentos em saúde, educação, infraestrutura, para garantir o pagamento da agiotagem nacional e internacional. A taxa de juros, que vai retornando a patamares da era FHC, não diminui o apetite rentista. É preciso reduzir direitos do trabalhador, com as medidas provisórias 664 e 665 e a Lei da Terceirização.

Congressistas, mais preocupados em construir shoppings e garantir o dinheiro para suas campanhas, subscrevem o pacote de maldades. Ofuscado por falsas dicotomias, eis o aspecto que une governo e oposição (salvo aqueles que se costuma chamar de nanicos da esquerda): garantir o lucro dos players.

Com uma década de atraso, seguimos a trilha que levou a Europa ao abismo: disciplina fiscal, desmonte do Estado, privatizações, aumento de impostos, redução do crédito. Vivendo e não aprendendo. Esperemos uma contração da economia. O desemprego retornando a taxas próximas de 15%. O fim do nosso voo de galinha.

O Brasil do PT é o Brasil de Levy, dos bancos, do FMI. Da ministra Kátia Abreu, dos ruralistas, do gado-exportação, do agronegócio que nos torna campeões mundiais no consumo de agrotóxico, do desmatamento contínuo que reduz as chuvas. Dos transgênicos do deputado Luís Carlos Heinze, que atropelam indígenas e quilombolas, “tudo que não presta” no país.

Aceitamos o papel histórico de celeiro do mundo, mesmo que isto nos custe arruinar nosso solo, nossas águas, nossas florestas, nosso futuro. Renunciamos à possibilidade de desenvolver uma indústria de bens de capital própria. Após um breve clarão, nosso céu volta a escurecer. Desta vez, há nele uma estrela vermelha.

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Comunicação entre o então candidato à presidência José Serra e Patricia Pradal, diretora de desenvolvimento de negócios da Chevron, divulgada pelo Wikileaks em https://wikileaks.org/cable/2009/12/09RIODEJANEIRO369.html

No documento, Serra garante a Pradal que o regime de partilha, adotado pelo governo petista para exploração do pré-sal não funcionará, as licitações do pré-sal não ocorrerão e “nós mudaremos de volta”, referindo-se ao regime de concessão, implantado pelo governo tucano.

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2015

A previsão de Serra não se confirma, o leilão acontece, o consórcio encabeçado pela Petrobras fica com o campo de Libra. O agora senador, então, apresenta o Projeto de Lei 131, que retira da Petrobras a condição de operadora exclusiva dos poços do pré-sal, “bem como da condicionante de participação mínima da estatal de, ao menos, 30% da exploração e produção de petróleo do pré-sal em cada licitação”.

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