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O Novo Espírito do Capitalismo
(Luc Boltanski e Ève Chiapello. Gallimard: Paris, 1999)

A crise não é do capitalismo, mas da crítica a ele.

O capitalismo, sob muitos aspectos, é um sistema absurdo: os assalariados perderam a propriedade do resultado de seu trabalho e a possibilidade de levar uma vida ativa fora da subordinação. Quanto aos capitalistas, estão presos a um processo infindável e insaciável, totalmente abstrato e dissociado da satisfação de necessidades de consumo, mesmo que supérfluas. Para esses dois tipos de protagonistas, a inserção no processo capitalista carece de justificações“. (Pág. 38)

O capitalismo é, provavelmente, a única forma histórica ordenadora de práticas coletivas perfeitamente desvinculada da esfera moral, no sentido de encontrar sua finalidade em si mesma (…) portanto, supõe referência a construtos de outra ordem“. (Pág. 53)

O ser humano, saciável, precisa de uma dimensão moral para mantê-lo engajado neste processo insaciável. É preciso um suporte ideológico eficaz para que o trabalhador aceite uma atribuição aleatória de valor a seu trabalho. Hoje, é preciso proporcionar ao homem uma garantia mínima de conforto e segurança, explorando-lhe uma característica.

O capitalismo só pode desenvolver-se apostando na inclinação humana para acumular ganhos, invenções, experiências diferentes“. (Pág. 484)

Segundo Max Weber, foi com a Reforma que se impôs a crença de que o dever é cumprido em primeiro lugar pelo exercício de um ofício no mundo, nas atividades temporais, em oposição à vida religiosa fora do mundo“. (Pág. 40)

Até então, a Igreja condenava a usura, o acúmulo. “Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus (Mateus 19:24)”. Surge, então, Calvino: “Se a Mão de Deus estiver sobre a tua cabeça tu serás beneficiado aqui na terra com muita saúde e prosperidade. Por este indício compreenderás que estás predestinado à salvação“.

Capitalismo contemporâneo: no viés consumista, o ecologicamente correto é um dos novos construtos. Consumismo verde, comprar sem peso na consciência. No viés produtivo, para ser eficiente, a empresa deve contar cada vez mais com a capacidade de iniciativa de seus empregados. Inovação, criatividade, liderança, multifuncionalidade, em contraposição a “trajetória de carreira, por definições de função e por sistemas de punições-recompensas propostos nos anos 60“. (Pág. 122)

Resultam desta nova ideologia o individualismo, refletido na dessindicalização. Self-made men. Os que melhor se adaptam ganham uma “unidimensionalidade que lhes confere, para o mundo exterior, algo de anormal e até monstruoso” (Pág. 413). Surge o Homo economicus, limitado a produzir e consumir, sem capacidade crítica e de sociabilidade restrita.

Sem resistência, o capitalismo avança e, confirmando Marx, devora a si próprio.

Eis o novo mundo.

One Comment

  1. Há um porém: a propaganda política feita por candidatos de partidos que se dizem alternativos (PSOL, PCB, PCO), condenando “a exploração do homem pelo homem”, não é capaz de convencer as pessoas de que outro mundo é possível. Parte do problema está no discurso: se nos dissessem qual o caminho a seguir para chegar à redenção que dizem existir e que esse trajeto leva tempo, em vez de apenas afirmar que vivemos o fim do mundo, talvez tivéssemos consciência de como aplacar a voracidade capitalista. As pessoas não aceitam radicalismos.


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