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“A discussão está na mesa. Terá de ser feita. Pode ser num clima de enfrentamento ou de entendimento”.

Seria bom Franklin Martins cumprir a ameaça. É necessário repensar o papel não apenas de emissoras de TV e rádio, mas de todas as empresas jornalísticas deste país. É um dos segmentos que não avança, porque relegado a uma dezena de famílias que compromete o debate público, padronizando o modo de pensar e agir de quase 200 milhões de indivíduos. Que achincalha, distorce e omite ao sabor da conveniência.

“A arma mais poderosa da supraposmodernidade do século XXI radica no domínio maior possível dos meios de informação. Que já não informam. Que transmitem à população os interesses das empresas que formam o monopólio. Interesses nos quais todas coincidem”. (José Pablo Feinmann, filósofo, ensaísta, escritor)

2010 evidenciou, uma vez mais, esta postura. Na tentativa de minar a candidatura Dilma Rousseff, as famílias investiram, por exemplo, na violação do sigilo fiscal de membros do PSDB ligados ao paulista José Serra, candidato que desejavam ver eleito. Responsabilizaram imediatamente o partido adversário. Mais tarde, soube-se, o repórter que investigava os tucanos estava a serviço de O Estado de Minas, num esforço para blindar Aécio Neves, concorrente interno de Serra à Presidência da República.

“Milhares de brasileiros sonhavam com uma campanha eleitoral sem sobressaltos e centrada nas propostas dos candidatos, mas mais uma vez o jogo sujo está eclipsando o debate político.” (El País, edição de 16/9/2010)

Nada de novo. Na eleição anterior, as mesmas famílias também apostaram num dossiê contra tucanos, supostamente encomendado pelo Partido dos Trabalhadores. TSE e, mais tarde, STF, em decisão unânime, desmontaram a tese defendida pela imprensa.

O histórico contrário às forças populares é extenso. Passa pela campanha contra Getúlio Vargas que resultou em seu suicídio, pelo apoio ao golpe de Estado em João Goulart e consequente suporte à ditadura militar, pela operação abafa ao movimento pela retomada das eleições diretas. O episódio mais ilustrativo deste comportamento data de 1989, quando a TV Globo levou ao ar uma edição de debate favorável a Fernando Collor de Mello, em detrimento de Luiz Inácio Lula da Silva.

“A imprensa brasileira tem sido adversária histórica das instituições representativas do País”. (Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político)

Mesmo antes do debate, desseminava-se o temor de que, eleito, Lula confiscaria os bens dos brasileiros. Quem mantinha caderneta de poupança naquele ano conhece bem o fim desta história.

Em nova empreitada contra um governo que não aceitam, as famílias voltam a erguer o estandarte da liberdade. Em seu nome, declaram estado de exceção e abdicam do princípio da imparcialidade. Em março, a presidente da Associação Nacional de Jornais e executiva da Folha de S. Paulo, Maria Judith Brito, assume: “esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”.

O Estado de S. Paulo é mais direto, e assume, em editorial (“O mal a evitar“, 26/9/2010) seu apoio a José Serra. Novamente, evocando a liberdade como princípio democrático.

O engodo dura menos de uma semana, quando Maria Rita Kehl conhece a liberdade do Estadão. Na véspera do primeiro turno, ela defende o Bolsa Família em sua coluna no periódico.  É demitida.

A liberdade da Folha já havia dado as caras alguns dias antes, quando o grupo conseguira, na Justiça, acabar com o site Falha de S.Paulo, que o satirizava. 

“A informação deve poder circular. A sociedade da informação só pode existir sob a condição de troca sem barreiras. Ela é por definição incompatível com o embargo ou com a prática do segredo, com as desigualdades de acesso á informação e sua transformação em mercadoria”. (Armand e Michèle Mattelart, História das Teorias da Comunicação).

Ainda que a preocupação dos dois jornais fosse honesta, não se justificaria. O Governo Lula sempre recuou diante de qualquer proposta que incomodasse as famílias. Foi assim na criação do Conselho Federal de Jornalismo, na escolha de nosso modelo de TV Digital, no trato com as rádios comunitárias, no Plano Nacional de Direitos Humanos. Entre as ditas democracias contemporâneas, o Brasil mantém uma das leis mais frouxas em relação à imprensa.

“Serra’s campaign is in disarray. He seems to be running on a single issue: his achievements as health minister a decade ago and his investments in health services as mayor of São Paulo city and governor of São Paulo state. He has taken up valuable column inches accusing Evo Morales of Bolivia of running cocaine into Brazil, accusing the PT of links to the FARC in Colombia and accusing the government of censoring Brazil’s press – surely one of the most uncensored in the world”. (Jonathan Wheatley para o Financial Times, 24/8/2010)

Quem conhece as entranhas da imprensa brsileira, conhece a liberdade que ela deseja: a de publicar somente o que lhe interessa. Não se sabe se a proposta do Governo será capaz de mudar esse quadro, mas é preciso, ao menos, torná-lo público. Ou naufragaremos. Todos.

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. (Joseph Pulitzer, jornalista)

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