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Tocqueville temia que uma sociedade igualitária pudesse gerar uma sociedade medíocre: num mundo sem aristocracia, não mais seria possível alguém dedicar-se exclusivamente a sua formação intelectual. Lá se vai um século e meio, e a permanência da aristocracia não impediu o progresso da mediocridade.

Respira-se um declínio intelectual. Houve um tempo de Galileu, um tempo de Sartre. Um tempo de Brecht e um tempo de Darwin. Pensadores multidimensionais. Cervantes, Henry David Thoreau, Darcy Ribeiro. Atingimos um auge e então, passamos a despencar pela ladeira do pensar.

O conhecimento multidisciplinar sumiu. Uma geração inteira abandonada pelos pais, educada quase que exclusivamente por ele, o Sistema. Crianças vão à escola apenas para ouvir um blá-blá-blá enfadonho, onde são forçadas a engolir livros e decorar regras igualmente enfadonhos e inférteis. Mais tarde, se converterão em formandos, mestres e doutores enclausurados em sua própria “especialidade”, incapazes da discussão plural. Engenheiros que mal conseguem se expressar, historiadores que não sabem calcular.

A inibição do pensar e, consequentemente, do viver com plenitude leva ao individualismo e ao consumismo – como subterfúgio a satisfações outras – que sustentam o status quo. Trabalho, disciplina, carreira, sucesso, dinheiro são as novas metas. A busca do reconhecimento em uma sociedade servil. Surge um novo conceito de escravo, contemporâneo, que, diferentemente dos antecessores, sequer questiona sua condição. Não percebe – ou não quer perceber – que as migalhas recebidas por seu trabalho ainda lhe são posteriormente surrupiadas na forma de impostos crescentes e de seu consumismo desesperado, num ritmo determinado pelos novos senhores feudais. Aluguel, financiamento, gasolina, IPVA, celular, cheque especial, seguro do carro, da casa, da vida.

Nesta nova ordem fecham-se os espaços para novos Einsteins, Espinosas, Da Vincis. Fica um vácuo que vai sendo ocupado por farsantes como Francis Fukuyama e sua tentativa de acabar com a história e as utopias. O mesmo se dá nas manifestações artísticas, como a música: sem Beethovens, Tchaikowskys ou Villa-Lobos, é engolida pelo business das pirotecnias, rebolados, refrões vazios e repetitivos, que hipnotizam multidões.

E cada vez mais hipnotizados, menor a possibilidade de enxergarmos além de nossas concepções equivocadas e retomarmos nossa natureza de seres coletivos. Reina a tese do homem unidade-autônoma, que corrói instituições coletivas essenciais à nossa evolução: sindicatos, movimentos sociais, partidos.

No triunfo do materialismo, o homem tornou-se uma sucessão de fracassos: crise existencial, depressão, ansiedade, medo, obesidade, insônia, vícios. Essa é a igualdade que se universaliza. E que Tocqueville talvez não tenha contemplado em suas visões.

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