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 Foi num 20 de fevereiro, 1832.

O navio britânico H.M.S. Beagle ancorou no arquipélago de Fernando de Noronha, trazendo a bordo um ainda anônimo Charles Darwin. Aqui, no mesmo diário em que coletou informações para sustentar sua futura Teoria da Evolução, registrou impressões não menos reveladoras sobre aquele país quase recém-nascido.

Na manhã do dia 28, avistou a costa da Bahia. Encanto no pós-desembarque: “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o voo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, pode-se esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção”.

Em 4 de março, carnaval em Salvador, comentário breve sobre aquela sociedade escravista: “Não tenho dúvidas de que a atual situação da maioria absoluta da população escrava é muito mais feliz do que estaríamos previamente inclinados a crer. O interesse e qualquer bom sentimento que pudesse ter o proprietário acabariam por levar a isso. Mas é totalmente falso que nem um deles, mesmo entre os mais bem tratados, quer retornar a seu país. ‘Se apenas eu pudesse ver meu pai e minhas duas irmãs mais uma vez já ficaria feliz. Nunca consegui esquecê-los’.”.

O testemunho da escravidão marcou o naturalista. Mais tarde, em 1845, recusou um convite para ir aos Estados Unidos, anotando: “Agradeço a Deus nunca mais ter de visitar um país escravagista. Até hoje, quando ouço um grito distante, ele me faz lembrar com dolorosa vivacidade meus sentimentos, quando, passando em frente a uma casa próxima de Pernambuco*, eu ouvi os mais penosos gemidos, e não podia suspeitar que pobres escravos estavam sendo torturados. Perto do Rio de Janeiro eu morava em frente à casa de uma velha senhora que mantinha torniquetes de metal para esmagar os dedos de suas escravas. Eu fiquei em uma casa em que um jovem caseiro mulato, diariamente e de hora em hora, era vituperado, espancado e perseguido o suficiente para arrasar com o espírito de qualquer animal. Eu vi um garotinho, de seis ou sete anos, ser castigado três vezes na cabeça com um chicote para cavalo (antes que eu pudesse interferir) por ter-me servido um copo d’água que não estava muito limpo”.

 Em 1º de abril, chega ao Rio de Janeiro, aluga casa em Botafogo. No dia 6, conhece a burocracia nacional ao tentar obter um passaporte que o habilitaria a viajar pelo interior do Estado. “Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis suas pessoas, é quase intolerável”.

Após 3 meses no Rio, despede-se com o diagnóstico: “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer vantagem sobre os miseráveis e os pobres. Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem só uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem humorados enquanto isso não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não explosivos; satisfeitos com suas personalidades e seus hábitos, respondem a todos os comentários perguntando ‘por que não podemos fazer como fizeram nossos antepassados antes de nós?”.

Lá se vão quase dois séculos da passagem de Darwin por aqui. Nesse intervalo, compilou seus estudos e publicou A Origem das Espécies. O livro, até hoje considerado a maior ideia individual do pensamento humano, virou base da biologia, abalou o poder da Igreja (embora Darwin tenha evitado a todo custo esse confronto), desencadeou linhas e linhas posteriores de pesquisas, transformou toda uma concepção sobre a vida no planeta.

Mas teses existem para serem derrubadas. E a de Darwin pode cair por seus próprios apontamentos, feitos no trecho Bahia-Rio. Caso algum de seus seguidores decida reavaliar o Brasil partindo daquelas anotações, constatará: o brasileiro é espécie que não evolui.

* Recife, onde o Beagle atracou no regresso à Inglaterra

One Comment

  1. Somos um caso à parte, Nando. Involuímos. Para provar, estou no fechamento neste domingo à noite. Tudo está pronto. Só falta preencher um espaço reservado numa das páginas, o que deve acontecer daqui a três horas. Será ocupado pelo resultado de hoje do Big Brother Brasil.


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