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“…o episódio passou-se da maneira que vamos passar a explicar, por onde se verá que as frustradas tentativas a que nos referimos resultaram do insuficiente conhecimento que o dito criador tinha das temperaturas de cozedura.

Começou ele por fazer com barro uma figura humana, de homem ou de mulher é pormenor de somenos, meteu-a no forno e atiçou-lhe o necessário lume. Passado o tempo que lhe pareceu certo, tirou-a de lá, e, meu Deus, caiu-lhe a alma aos pés. A figura tinha saído negra retinta, nada parecida com a ideia que ele tinha do que deveria ser o seu homem. No entanto, talvez porque ainda estava em começo de actividade, não teve ânimo de destruir o falhado produto da sua falta de jeito. Deu-lhe vida, supõe-se que com um piparote na cabeça, e mandou-o embora.

Tornou a modelar outra figura, meteu-a no forno, mas desta vez teve o cuidado de se acautelar com o lume. Conseguiu-o, sim, mas demasiado, pois a figura apareceu-lhe branca como a mais branca de todas as coisas brancas. Ainda não era o que ele queria. Contudo, apesar do novo falhanço, não perdeu a paciência, deve mesmo ter pensado, indulgente, Coitado, a culpa não foi dele, enfim, deu também vida a este e pô-lo a andar.

No mundo havia já portanto um preto e um branco, mas o canhestro criador ainda não tinha logrado a criatura que sonhara. Pôs uma vez mais mãos à obra, outra figura humana foi ocupar lugar no forno, o problema, mesmo não existindo ainda o pirómetro, devia ser mais fácil de solucionar a partir d’agora, isto é, o segredo era não aquecer o forno nem de mais nem de menos, nem tanto nem tão pouco, e, sendo esta conta de três, deveria ser de vez. Não foi. É certo que a nova figura não saiu preta, é certo que não saiu branca, mas, oh céus, saiu amarela.

Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado à pressa um dilúvio para acabar com o preto e o branco teria partido o pescoço ao amarelo, o que até se poderia considerar como a conclusão lógica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta, Se eu próprio não sei fazer um homem capaz, como poderei amanhã pedir-lhe contas dos seus erros. Durante uns quantos dias o nosso improvisado oleiro não teve coragem de entrar na olaria, mas depois como se costuma dizer, o bichinho da criação tornou a entrar com ele e ao cabo de algumas horas a quarta figura estava modelada e pronta a ir ao forno.

Na suposição de que então houvesse acima deste criador outro criador, é muito provável que do menor ao maior se tivesse elevado algo assim como um rogo, uma prece, uma súplica, qualquer coisa no género, Não me deixes ficar mal.

Enfim, com mãos ansiosas introduziu a figura de barro no forno, depois escolheu com minúcias e pesou a quantidade de lenha que lhe pareceu conveniente, eliminou a verde e a demasiado seca, tirou de uma que ardia mal e sem graça, acrescentou de outra que dava uma chama alegre, calculou com a aproximação possível o tempo e a intensidade do calor, e, repetindo a imploração, Não me deixes ficar mal, chegou um fósforo ao combustivo.

Nós, humanos de agora, que temos passado por tantas situações de ansiedade, um exame difícil, uma namorada que faltou ao encontro, um filho que se fazia esperar, um emprego que nos foi negado, podemos imaginar o que este criador teria sofrido enquanto aguardava o resultado da sua quarta tentativa, os suores que provavelmente só a proximidade do forno impediu que fossem gelados, as unhas roídas até ao sabugo, cada minuto que ia passando levava consigo dez anos de existência, pela primeira vez na história das diversas criações do universo mundo ficou o próprio criador a conhecer os tormentos que nos aguardam na vida eterna, por eterna ser, não por ser vida.

Mas valeu a pena. Quando o nosso criador abriu a porta do forno e viu o que lá se encontrava dentro, caiu de joelhos extasiado. Este homem já não era nem preto, nem branco, nem amarelo, era, sim, vermelho, vermelho como são vermelhos a aurora e o poente, vermelho como a ígnea lava dos vulcões, vermelho como o fogo que o havia feito vermelho, vermelho como o mesmo sangue que já lhe estava correndo nas veias, porque a esta humana figura, por ser a desejada, não foi preciso dar-lhe o piparote na cabeça, bastou ter-lhe dito, Vem, e ela por seu próprio pé saiu do forno.

Quem desconheça o que se passou nas posteriores idades, dirá que, não obstante tal cópia de erros e ansiedades, ou, pela virtude instrutiva e educativa da experimentação, graças a eles, a história acabou por ter um final feliz.

Como em todas as coisas deste mundo, e certamente de todos os outros, o juízo dependerá do ponto de vista do observador. Aqueles a quem o criador rejeitou, aqueles a quem, embora com benevolência de agradecer, afastou de si, isto é, os de pele preta, branca e amarela, prosperaram em número, multiplicaram-se, cobrem, por assim dizer, todo o orbe terráqueo, ao passo que os de pele vermelha, aqueles por quem se tinha esforçado tanto e por quem sofrera um mar de penas e angústias, são, nestes dias de hoje, as evidências impotentes de como um triunfo pôde vir a transformar-se, passado tempo, no prelúdio enganador de uma derrota”.

José Saramago, A Caverna

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