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Monthly Archives: agosto 2011

O capital invade e destroça mais um país, amparado por sua máquina propagandista. Aos olhos do ocidente, Kaddafi é um tirano. Deve sair. A imprensa oficializa: o governo líbio caiu como consequência da Primavera Árabe. Não pela ação da OTAN, que armou a oposição, enviou navios, aviões, helicópteros. Pouco importam os bombardeios, as mortes, a água poluída, o êxodo para Tunísia e Egito. Ele deve sair.

“A Imprensa é um meio de expressão da sociedade e não o meio de expressão de uma pessoa física ou moral. Logo, democraticamente, não pode ser a propriedade nem de uma nem de outra. No caso de um particular, proprietário de um jornal, o jornal é dele e exprime unicamente o ponto de vista dele. Pretender que isto seja o jornal da opinião pública é falso e sem qualquer fundamento”.*

Não fosse o apoio dos colonizadores de sempre, a oposição formada por Irmandade Muçulmana, Al-Qaeda e monarquistas dificilmente atingiria seu objetivo. Talvez pela resistência dos líbios que, gozadores de educação gratuita até a universidade, prefiram a ditadura de seus comitês populares ao modelo ocidental de ‘democracia’.

“O partido não é de modo algum um mecanismo democrático porque é composto de pessoas que têm os mesmo interesses, ou as mesmas vistas, ou a mesma cultura, ou fazem parte de uma mesma região, ou tem a mesma ideologia, e que se agrupam para assegurar seus interesses, impor suas opiniões, estender o poder de sua doutrina à sociedade inteira (…) O partido da oposição, como ‘máquina de governar’ que deseja alcançar o poder, deve necessariamente abater a máquina ali instalada e, para conseguir isso, precisa sabotar as realizações e desacreditar os projetos, mesmo que eles sejam proveitosos à sociedade”.*

Ou talvez porque, conhecendo a realidade de outras nações muçulmanas, os líbios pensem que a filosofia de seu ditador seja melhor que qualquer radicalismo islâmico.

“A discriminação entre o homem e a mulher é um flagrante ato de opressão sem qualquer justificação”.*

Com Kaddafi fora do jogo, o capital pretende derrubar também os altos impostos à exploração de petróleo naquele país. Grana que ajuda a manter por lá uma das mais altas rendas per capita e o mais elevado IDH do continente (0,755), muito superior ao brasileiro (0,699).

“A liberdade do homem não existe se alguém controla aquilo de que ele necessita. A necessidade provoca a exploração”.*

Fala-se também em ‘reconstrução’ da Líbia, uma oportunidade de novos e rentáveis contratos, alimentados por mão-de-obra abundante, barata.

“O trabalhador assalariado é como um escravo para o patrão que o aluga. É um escravo temporário, pois a sua escravatura dura enquanto trabalha por um salário (…)Assim, a mais importante característica dos sistemas econômicos que imperam hoje no mundo é o sistema assalariado, que priva o trabalhador de qualquer direito à sua produção, quer seja produzida para a sociedade, quer para uma empresa privada”.*

E o mais importante: elimina-se aqui o homem que desmantelou bases norteamericanas e britânicas em seu território, ajudou a criar a União Africana e vem insistindo na proposta de uma moeda única para os africanos. Moeda lastreada em ouro, imune às oscilações do dólar, para comercializar petróleo. Mais do que seus atos, as ideias de Kaddafi é que incomodam. Seu afastamento do poder é a garantia de que esses devaneios fiquem apenas no papel.

“A lei natural criou o socialismo natural, baseado na igualdade entre os fatores econômicos de produção, o que produziu um consumo quase igual à produção natural. Mas a exploração do homem pelo homem e a posse por parte de alguns indivíduos de mais bens do que necessitam é uma manifesto afastamento da lei natural e começo da corrupção e distorção na vida da comunidade humana”.*

* Muammar Al Kaddafi, em O Livro Verde

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Carnavais, Malandros e Heróis
(Roberto DaMatta – Brasil, 1979)

Desfile militar e Carnaval. Opostos e complementares. Um rito acentua a separação. O outro inverte as posições sociais. O desfilante, geralmente pobre, negro, representando a figura de um nobre ou rei – teatralização que salienta o caráter domesticado de pobre em nobre. Uma trégua entre dominantes e dominados.

“…as fantasias atualizam combinações totalmente não-gramaticais do quotidiano da cultura brasileira, como é o caso das fantasias usadas nos desfiles das escolas de samba ou aquelas que acentuam componentes homossexuais. É, pois, comum encontrar, durante o Carnaval, um bandido bailando com um xerife ou uma caveira com uma moça. É justamente essa combinação e essa conjunção de representantes simbólicos (ou reais) de campos antagônicos e contraditórios que constitui a própria essência do Carnaval como um rito nacional”. (Pág.51)

Mas o povo que faz o Carnaval é o mesmo que faz o Sete de Setembro. O chefe boa-praça é também o homem do “Você sabe com quem está falando?”. O malandro e o caxias são igualmente admirados. “É, portanto, na cultura da igualdade desmedida e personalizada das massas que surge o caudilho autoritário, mas paternal na sua simpatia E é no mundo do populismo reformador que surge o mais violento autoritarismo como modo crítico de reestruturar o sistema”. (Pág.55)

“Você sabe com quem está falando?”. Expressão excluída dos estudos, por revelar “um modo indesejável de ser brasileiro, pois que revelador do nosso formalismo e da nossa maneira velada (e até hipócrita) de demonstração dos mais violentos preconceitos”. (Pág.147).

Reflete segregação social, é a negação do ‘jeitinho’, da ‘cordialidade’ e da ‘malandragem’, comumente usados para definir no modo de ser. Trata-se de um rito de autoridade. Indica situação conflitiva numa sociedade avessa ao conflito. “Numa sociedade, a crise indica algo a ser corrigido; noutra, ela representa o fim de uma era, sendo um sinal de catástrofe. Tudo indica que, no Brasil, concebemos os conflitos como presságios do fim do mundo, e como fraquezas (…) tomamos, então, o partido de sempre privilegiar nossas vertentes mais universalistas e cosmopolitas (…) as camadas dominantes e vencedoras sempre adotam a perspectiva da solidariedade, ao passo que os dissidentes e dominados assumem sistematicamente a posição de revelar o conflito, a crise e a violência de nosso sistema”. (Pág.148)

O “Você sabe com quem está falando?” denuncia ojeriza à discórdia num sistema preocupado em manter cada um no seu lugar. É empregado também por inferiores na estrutura de poder. Pelo empregado que representa o patrão. É “muito mais fácil a identificação com o superior do que com o igual, geralmente cercado pelos medos da inveja e da competição, o que, entre nós, dificulta a formação de éticas horizontais”. (Pág.158)

No Brasil prevalecem as relações pessoais sobre a lei, a distinção entre indivíduo (ética burocrática) e pessoa (ética pessoal).

O indivíduo prospera nas sociedades que fizeram sua reforma protestante e desenvolveram uma ética do trabalho e do corpo, propondo uma união igualitária entre corpo e alma. “Já nos sistemas católicos, como o brasileiro, a alma continua superior ao corpo, e a pessoa é mais importante que o indivíduo. Sendo assim, continuamos a manter uma forte segmentação social tradicional, com todas as dificuldades para a criação das associações voluntárias que são a base da ‘sociedade civil’, fundamento do Estado burguês, liberal e igualitário, dominado por indivíduos”. (Pág.189).

Temos a caridade, e não a filantropia (mais voltada à construção social). Reforça-se, assim, a ética vertical, a complementaridade. Um mundo dividido entre fortes e fracos. Os últimos recebem a lei, ficando como desgarrados. Depender de um órgão impessoal, no Brasil, é não pertencer a nenhum segmento, não ter ‘padrinho’.

Os protestos violentos, os movimentos messiânicos, a criminalidade são respostas à individualização, “um modo de reintegração no sistema, não mais como número ou elemento diferenciado (um indivíduo), mas como uma pessoa – com nome, honra e consideração”. (Págs.199 e 200). E tal como o “Você sabe com quem está falando?”, “convergem para a mesma dicotomia básica, ou seja, a oposição que marca e revela um mundo dominador de pessoas e uma massa impotente de indivíduos subordinados à letra da lei”. (Pág.201)