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Carnavais, Malandros e Heróis
(Roberto DaMatta – Brasil, 1979)

Desfile militar e Carnaval. Opostos e complementares. Um rito acentua a separação. O outro inverte as posições sociais. O desfilante, geralmente pobre, negro, representando a figura de um nobre ou rei – teatralização que salienta o caráter domesticado de pobre em nobre. Uma trégua entre dominantes e dominados.

“…as fantasias atualizam combinações totalmente não-gramaticais do quotidiano da cultura brasileira, como é o caso das fantasias usadas nos desfiles das escolas de samba ou aquelas que acentuam componentes homossexuais. É, pois, comum encontrar, durante o Carnaval, um bandido bailando com um xerife ou uma caveira com uma moça. É justamente essa combinação e essa conjunção de representantes simbólicos (ou reais) de campos antagônicos e contraditórios que constitui a própria essência do Carnaval como um rito nacional”. (Pág.51)

Mas o povo que faz o Carnaval é o mesmo que faz o Sete de Setembro. O chefe boa-praça é também o homem do “Você sabe com quem está falando?”. O malandro e o caxias são igualmente admirados. “É, portanto, na cultura da igualdade desmedida e personalizada das massas que surge o caudilho autoritário, mas paternal na sua simpatia E é no mundo do populismo reformador que surge o mais violento autoritarismo como modo crítico de reestruturar o sistema”. (Pág.55)

“Você sabe com quem está falando?”. Expressão excluída dos estudos, por revelar “um modo indesejável de ser brasileiro, pois que revelador do nosso formalismo e da nossa maneira velada (e até hipócrita) de demonstração dos mais violentos preconceitos”. (Pág.147).

Reflete segregação social, é a negação do ‘jeitinho’, da ‘cordialidade’ e da ‘malandragem’, comumente usados para definir no modo de ser. Trata-se de um rito de autoridade. Indica situação conflitiva numa sociedade avessa ao conflito. “Numa sociedade, a crise indica algo a ser corrigido; noutra, ela representa o fim de uma era, sendo um sinal de catástrofe. Tudo indica que, no Brasil, concebemos os conflitos como presságios do fim do mundo, e como fraquezas (…) tomamos, então, o partido de sempre privilegiar nossas vertentes mais universalistas e cosmopolitas (…) as camadas dominantes e vencedoras sempre adotam a perspectiva da solidariedade, ao passo que os dissidentes e dominados assumem sistematicamente a posição de revelar o conflito, a crise e a violência de nosso sistema”. (Pág.148)

O “Você sabe com quem está falando?” denuncia ojeriza à discórdia num sistema preocupado em manter cada um no seu lugar. É empregado também por inferiores na estrutura de poder. Pelo empregado que representa o patrão. É “muito mais fácil a identificação com o superior do que com o igual, geralmente cercado pelos medos da inveja e da competição, o que, entre nós, dificulta a formação de éticas horizontais”. (Pág.158)

No Brasil prevalecem as relações pessoais sobre a lei, a distinção entre indivíduo (ética burocrática) e pessoa (ética pessoal).

O indivíduo prospera nas sociedades que fizeram sua reforma protestante e desenvolveram uma ética do trabalho e do corpo, propondo uma união igualitária entre corpo e alma. “Já nos sistemas católicos, como o brasileiro, a alma continua superior ao corpo, e a pessoa é mais importante que o indivíduo. Sendo assim, continuamos a manter uma forte segmentação social tradicional, com todas as dificuldades para a criação das associações voluntárias que são a base da ‘sociedade civil’, fundamento do Estado burguês, liberal e igualitário, dominado por indivíduos”. (Pág.189).

Temos a caridade, e não a filantropia (mais voltada à construção social). Reforça-se, assim, a ética vertical, a complementaridade. Um mundo dividido entre fortes e fracos. Os últimos recebem a lei, ficando como desgarrados. Depender de um órgão impessoal, no Brasil, é não pertencer a nenhum segmento, não ter ‘padrinho’.

Os protestos violentos, os movimentos messiânicos, a criminalidade são respostas à individualização, “um modo de reintegração no sistema, não mais como número ou elemento diferenciado (um indivíduo), mas como uma pessoa – com nome, honra e consideração”. (Págs.199 e 200). E tal como o “Você sabe com quem está falando?”, “convergem para a mesma dicotomia básica, ou seja, a oposição que marca e revela um mundo dominador de pessoas e uma massa impotente de indivíduos subordinados à letra da lei”. (Pág.201)

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