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O capital invade e destroça mais um país, amparado por sua máquina propagandista. Aos olhos do ocidente, Kaddafi é um tirano. Deve sair. A imprensa oficializa: o governo líbio caiu como consequência da Primavera Árabe. Não pela ação da OTAN, que armou a oposição, enviou navios, aviões, helicópteros. Pouco importam os bombardeios, as mortes, a água poluída, o êxodo para Tunísia e Egito. Ele deve sair.

“A Imprensa é um meio de expressão da sociedade e não o meio de expressão de uma pessoa física ou moral. Logo, democraticamente, não pode ser a propriedade nem de uma nem de outra. No caso de um particular, proprietário de um jornal, o jornal é dele e exprime unicamente o ponto de vista dele. Pretender que isto seja o jornal da opinião pública é falso e sem qualquer fundamento”.*

Não fosse o apoio dos colonizadores de sempre, a oposição formada por Irmandade Muçulmana, Al-Qaeda e monarquistas dificilmente atingiria seu objetivo. Talvez pela resistência dos líbios que, gozadores de educação gratuita até a universidade, prefiram a ditadura de seus comitês populares ao modelo ocidental de ‘democracia’.

“O partido não é de modo algum um mecanismo democrático porque é composto de pessoas que têm os mesmo interesses, ou as mesmas vistas, ou a mesma cultura, ou fazem parte de uma mesma região, ou tem a mesma ideologia, e que se agrupam para assegurar seus interesses, impor suas opiniões, estender o poder de sua doutrina à sociedade inteira (…) O partido da oposição, como ‘máquina de governar’ que deseja alcançar o poder, deve necessariamente abater a máquina ali instalada e, para conseguir isso, precisa sabotar as realizações e desacreditar os projetos, mesmo que eles sejam proveitosos à sociedade”.*

Ou talvez porque, conhecendo a realidade de outras nações muçulmanas, os líbios pensem que a filosofia de seu ditador seja melhor que qualquer radicalismo islâmico.

“A discriminação entre o homem e a mulher é um flagrante ato de opressão sem qualquer justificação”.*

Com Kaddafi fora do jogo, o capital pretende derrubar também os altos impostos à exploração de petróleo naquele país. Grana que ajuda a manter por lá uma das mais altas rendas per capita e o mais elevado IDH do continente (0,755), muito superior ao brasileiro (0,699).

“A liberdade do homem não existe se alguém controla aquilo de que ele necessita. A necessidade provoca a exploração”.*

Fala-se também em ‘reconstrução’ da Líbia, uma oportunidade de novos e rentáveis contratos, alimentados por mão-de-obra abundante, barata.

“O trabalhador assalariado é como um escravo para o patrão que o aluga. É um escravo temporário, pois a sua escravatura dura enquanto trabalha por um salário (…)Assim, a mais importante característica dos sistemas econômicos que imperam hoje no mundo é o sistema assalariado, que priva o trabalhador de qualquer direito à sua produção, quer seja produzida para a sociedade, quer para uma empresa privada”.*

E o mais importante: elimina-se aqui o homem que desmantelou bases norteamericanas e britânicas em seu território, ajudou a criar a União Africana e vem insistindo na proposta de uma moeda única para os africanos. Moeda lastreada em ouro, imune às oscilações do dólar, para comercializar petróleo. Mais do que seus atos, as ideias de Kaddafi é que incomodam. Seu afastamento do poder é a garantia de que esses devaneios fiquem apenas no papel.

“A lei natural criou o socialismo natural, baseado na igualdade entre os fatores econômicos de produção, o que produziu um consumo quase igual à produção natural. Mas a exploração do homem pelo homem e a posse por parte de alguns indivíduos de mais bens do que necessitam é uma manifesto afastamento da lei natural e começo da corrupção e distorção na vida da comunidade humana”.*

* Muammar Al Kaddafi, em O Livro Verde

2 Comments

  1. Há um porém, Nando: Kaddafi desrespeitou a última frase do último parágrafo que você reproduziu (ter mais bens do que se precisa)… Mas é fato que todo golpe só requer uma desculpa. Se tivessem lido ‘O Livro Verde’ no tempo da Guerra Fria, e também com base nesse último parágrafo, ocidentais distorceriam as referências de Kaddafi sobre socialismo e diriam que ele é “comunista”.

  2. Nesses 40 anos ele desrespeitou muita coisa, Rafa. É o ‘esqueçam o que escrevi’ líbio.


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