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Tambores ritmados percorrem as vielas do Saji, quebrando o costumeiro silêncio da comunidade. A brisa espalha os batuques pela vilinha, incrustada na última praia ao sul do Rio Grande do Norte. Há corpos pintados, cabeças exibindo cocares, mãos que estalam maracás por todos os lados, vozes que avisam em coro: “sou Potiguara, sou filho de Tupã”.

É noite de Toré, ritual de celebração da identidade Potiguara. Mas o clima não é exatamente festivo. A tensão fica evidente no rosto do pajé assim que um círculo se fecha a seu redor. Seu olhar percorre um a um dos presentes enquanto ele fala de terra, família e, sobretudo, união. Quando a dor de um torna-se a dor de todos, é mais fácil curá-la.

E a dor do Saji, hoje, é a dor de sempre: novamente, surge um forasteiro apresentando-se como dono daquelas terras. Mas este lhes parece mais determinado que os anteriores – os que ameaçaram seus pais, avós, bisavós. A batalha promete ser a mais dura de todas. É preciso transformar a luta desses potiguaras na luta de todos os potiguaras.

Chegam, então, do sul, os parentes da Baía da Traição, Paraíba. Do oeste, vêm os de Eleotério do Catú, Canguaretama. O círculo aumenta, o coro vai ficando mais forte. Passaram-se cinco séculos da invasão europeia, e eles estão novamente reunidos no território onde sua etnia batizou toda uma gente. E essa gente, cinco séculos depois, ainda reluta em reconhecer-lhes a existência, em conceder-lhes um pequeno espaço de chão.

Pajé ao centro entoando cânticos, orações, palavras de ordem. Fala do suposto invasor e seus planos de edificar um hotel sobre a terra onde nasceram e cresceram, onde enterraram seus antepassados. O cacique franze a testa e junta-se ao círculo vivo que canta, dança e reza. Está consciente de que chegou a sua vez de liderar a batalha pelo Saji. Mas não se assusta. Desde menino, quando as moradias ainda eram de palha, se acostumou a ver forasteiros chegarem por ali reivindicando a posse do lugar. Já assistiu à derrubada de muitos lares – o próprio, inclusive. Mas, sabe, também que todos foram reerguidos.

A noite abraça o Saji. Os batuques cessam, os chocalhos dão o último tilintar. O pajé agradece, as famílias se abraçam e voltam para suas casas. O toré termina. Mas a luta está só começando.

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