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Fernando Lugo foi deposto pela fórmula do golpe branco, possibilitado por uma constituição mal-redigida, como a maioria dos textos jurídicos que conhecemos. Um golpe sutil e eficaz, sem a presença incômoda e démodé dos militares. Assim serão os golpes do nosso tempo, cumprindo a agenda iniciada em Honduras.

Da era militar, permanece a desfaçatez diante dos motivos alegados para as deposições. Oficialmente, Lugo cai pela violência no campo, pela morte dos sem-terra. Como se fosse isto exceção em terras latinoamericanas e especialmente paraguaias. Como se, num passe de mágica, congressistas íntegros decidissem que essas mortes não mais são toleráveis. Imaginemos Fernando Henrique Cardoso sendo deposto pelo massacre em Eldorado dos Carajás.

Lugo cai pelos mesmos desejos internacionais que arrasaram um incipiente Paraguai soberano há 150 anos, num ato fratricida do qual ainda nos orgulhamos de ter participado. O Mato Grosso do Sul é nosso, salve Duque de Caxias! Desta feita, unem-se a ele grileiros brasiguaios, traficantes, falsificadores de whisky, sacoleiros.

Lugo cai também por sua inabilidade. Não apostou no populismo radical, como faz Hugo Chávez, nem se aliou às elites, como fez Lula. Ficou no meio do caminho, onde permanece mesmo depois do impeachment: protestando, mas reconhecendo a derrota, hesitando em ir à cúpula do Mercosul. Faltam-lhe os colhões de um Solano Lopez para cair de pé – epílogo previsível para quem mal reconhece os filhos biológicos deixados pelo caminho. Que continue reverenciando o deus-comandante de sua igreja, aquela que tem por hábito apoiar golpes e genocídios.

Aos paraguaios, resta o retorno dos colorados, nossos aliados históricos, ao poder pleno. Certamente, eles trarão de volta a tranquilidade que os brasiguaios precisam para germinar em solo guarani suas sementes transgênicas contrabandeadas do Brasil. Quem sabe, também não voltem a cobrar o antigo preço camarada pela energia de Itaipu, que Lugo havia triplicado ao assumir o governo. Isto diz muito sobre a reação brasileira. Pudera. Nossa presidente não tem familiriadade alguma com golpes…

As peças se movem no tabuleiro. Um governo popularesco a menos sobre o Aquífero Guarani. Um obstáculo menos à ocupação norte-americana da base militar no Chaco. A América Latina não se livra dos golpes. O sonho de Bolívar continua distante.

One Comment

  1. Todos esses elementos que você menciona não aparecem em nossa mídia. Que, aliás, agiu como de costume: enquanto nos informa em tempo real da derrocada da Grécia e que a Espanha está à beira do abismo, deixa a população ignorante sobre o que se passa em países vizinhos ao Brasil. Juro, fiquei surpreso: num dia, de repente, a imprensa noticiou que Lugo poderia cair. E, já no dia seguinte, caiu. Mesmo com rito sumário, essas coisas não se tramam do dia para a noite. Duro (mas não, surpreendente) é ler os editoriais dos jornais, contemporizando que “talvez o processo devesse ser revisto, mas está dentro das leis locais”. Quando o legalismo interessa…


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