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Com o mensalão, a mídia volta a circundar a corrupção, sem, no entanto, tocá-la. A história se resume a petistas aloprados que compraram parlamentares em troca de apoio ao governo Lula. Consenso forjado na opinião pública burguesa produtora/consumidora de notícias.

Não se cogita a hipótese da corrupção ser condição sine qua non da existência desta sociedade, baseada na concentração da propriedade privada, exploração do homem pelo homem, acumulação de riqueza. Não se vai às estranhas do capitalismo, cuja eterna busca é o lucro, que só se dá com aumento de receita e redução de despesa. É o que põe em prática, novamente, o chamado Primeiro Mundo, em meio a mais uma crise: cortam-se gastos com saúde e educação, aumentam-se impostos sobre o contribuinte. A filosofia da empresa transplantada para o Estado.

Esta forma de organização, responsável pela morte anual de milhões, é moralmente, eticamente aceita por nós. Mais que isso: o indivíduo acumulador de bens é exemplo, não importando se a companhia para a qual trabalha comete crimes ambientais, sustenta/derruba governos, financia políticos de forma ilegal para atingir suas metas. Pois que o “capitalismo é, provavelmente, a única forma histórica ordenadora de práticas coletivas perfeitamente desvinculada da esfera moral, no sentido de encontrar sua finalidade em si mesma” (Luc Boltanski e Ève Chiapello, O Novo Espírito do Capitalismo).

Assim, a mídia, pilar de sustentação deste sistema, não correlaciona a corrupção sistêmica às grandes corporações privadas, que controlam, via financeira, o poder político. Esta mesma mídia rechaça e rechaçará quaisquer tentativas institucionais de fortalecer os mecanismos de regulação da atividade econômica, que poderiam reduzir os tentáculos privados dentro da máquina pública. Limitar-se-á a convencer a audiência de que políticos corruptos são causa-mor de nossa desgraça, fabricando “coletivamente uma representação social que, mesmo quando está muito afastada da realidade, perdura apesar dos desmentidos ou das retificações posteriores porque ela nada mais faz, na maioria das vezes, que reforçar as interpretações espontâneas” (Pierre Bordieu, A Miséria do Mundo).

Desta forma, a corrupção segue prosperando no cotidiano do burguês consumidor de notícias, seja nos pequenos e grandes favores em seu ambiente de trabalho, seja nas blitze policiais. A indignação virá à tona apenas com as manchetes de jornais, ocasiões sazonais nas quais nos interessamos por política. De resto, cuidaremos de nossas vidas, numa postura inerente ao “indiferentismo pequeno-burguês, segundo o qual sábio é aquele que cuida do próprio particular e quem se ocupa da política é alguém que dela tira proveito”. Daí “nasce a ideia de uma sociedade capaz de sobreviver com um Estado reduzido aos mínimos termos, uma sociedade que não tenha outro interesse público que o de fazer com que cada um possa perseguir o mais livremente possível seus interesses privados” (Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia).

O mensalão foi um capítulo deste tempo, onde o privado sobrepuja o público. Não será o último.

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