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The most dangerous man, to any government, is the man who is able to think things out for himself”. (H.L. Mencken)

“Um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. A justificativa do instituto responsável pelo Exame Nacional de Ensino Médio 2012 (Enem) pelas notas máximas atribuídas a redações com erros grotescos de português expõe o processo de coisificação a que educação vem sendo submetida nas últimas décadas.

Um egresso do ensino médio, diz o Ministério da Educação, está “ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”. Após dez anos aprendendo a ler e escrever? Quem será responsável por concluir sua alfabetização? O professor universitário?

Tal qual o combate à fome e a geração de empregos, a educação foi anexada ao projeto de manutenção de poder do Partido dos Trabalhadores, baseado em ações afirmativas. É a política compensatória, da vitimização endógena, tomando o lugar de investimentos que deveriam gerar serviços públicos aceitáveis, de promover justiça social.

Alimenta-se assim um círculo vicioso: o estudante do ensino médio recebe o diploma, engorda as estatísticas, e será um universitário com extrema dificuldade em ler e compreender Marx, Guimarães Rosa, Saramago, Heidegger. Mais adiante, se transformará no profissional que acata ordens sem muita reflexão.

No capitalismo pós-moderno, a educação tornou-se apenas instrumento de formatação de uma força de trabalho barata e produtiva. É o que a máquina precisa: peças para sua engrenagem. Para tal, é necessário transformar os estudantes também em estatística. Em mercadoria.

O aluno alienado de sua capacidade reflexiva hoje é o trabalhador alienado de amanhã. Sob a força do argumento da razão técnica, da ideologia do sucesso individual, executará sua funções automaticamente, incapaz de mensurar seu papel e, portanto, de reconhecer o valor de seu trabalho, de apropriar-se dele. Eis o pilar da exploração de uma classe sobre a outra na sociedade contemporânea.

O professor, algum dia visto como agente transformador, também vai sendo engolido pela máquina. Sob a batuta da universalização do acesso ao ensino – novamente as estatísticas -,  seu ofício é estuprado: em nome da produtividade, torna-se simples cumpridor de cronogramas. Nesta engrenagem, também ele é incapaz de perceber a diluição da fronteira entre seu trabalho e seu lazer. Não raro, vê-se diante de tarefas alheias à sua função e carrega tarefas para o ambiente doméstico, de onde pode ser acionado por meio de celulares ou emails e onde realiza alguma atividade extra, para aumentar sua renda.

A educação é a chave para o desenvolvimento? Seguramente, não esta.

One Comment

  1. “Um automóvel pode apresentar eventuais falhas mecânicas, mas foi projetado para percorrer grandes distâncias, revelando um excelente conceito técnico”;
    “Uma máquina de lavar pode não deixar as roupas limpas sempre, mas foi planejada para trabalhar anos a fio, revelando um excelente projeto no papel”;
    “Um jornalista pode cometer atrocidades informativas, mas foi educado para produzir grandes reportagens, revelando um excelente cabedal teórico”.
    Antes de fazer essas analogias, por um momento concordei com o argumento do instituto. Obrigado pelo sinal de alerta, para eu não cair no automático.


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