Pular navegação

Monthly Archives: junho 2013

“Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. As personalidades individuais desaparecem e o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Ela não pode realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Numa multidão ensandecida é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto. A multidão não constrói. Só tem força para destruir”. (Gustave Le Bon, A multidão: um estudo da mente popular)

As revoltas juninas nasceram de uma manifestação genuína, com foco no transporte público da capital paulista. Um trabalho decano do Movimento Passe Livre. Diante da histórica intransigência-violência estatal, ganhou amplitude e arregimentou outras camadas da sociedade. Tal mistura pode ter esterilizado o germe da mudança.

Não foi ‘o povo’ que saiu às ruas. O Datafolha alega: 78% dos manifestantes do dia 20 de junho tinham nível superior. Em termos nacionais, esse índice é de 12%.

Viu-se uma multidão majoritariamente branca, com pautas difusas e cartazes engraçadinhos. Rostos jovens, filhos da era da velocidade, cumpridores de tarefas múltiplas. Filhos da internet, com seus smartphones. Filhos da contradição: hiperindividualistas, mas anulados em suas subjetividades. Publicam nas redes sociais cada passo de suas vidas.

As redes, notadamente o Facebook, acenaram-lhes com a possibilidade de sair do anonimato. Aí estava uma praça pública, um espaço de expressão. Construiu-se, assim, sobre uma realidade hiperfragmentada, a ilusão de um novo tecido social.

O Facebook atraiu outras gerações, menos familiarizadas, igualmente seduzidas. E nesse espaço vale-tudo, não há filtros: boatos se disseminam, notícias velhas são republicadas, vazios políticos são compartilhados. Potencializa-se o bombardeio midiático surdo e caolho. “A chamada ‘despolitização’ midiática ou tecnológica resulta, por sua vez, do enfraquecimento ético-político das antigas mediações e do fortalecimento da midiatização (…) a tecnointeração toma o lugar da mediação, desviando os atores políticos da prática representativa concreta (norteada por conteúdos valorativos ou doutrinários) para performance imagística”. (SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho).

Cultiva-se na redes sociais um ódio diário, disperso, vazio. Foi este ódio que ganhou as ruas e que pretende enterrar 2,5 mil anos de história política.

Anúncios

Ressurge a democracia

“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.”

O Globo, 2 de abril de 1964

“Meu otimismo está baseado na certeza de que esta civilização vai desmoronar. Meu pessimismo está em tudo aquilo que ela faz para arrastar-nos em sua queda”. (Jean-François Brient, Da Servidão Moderna)

Em nome de minha geração, peço desculpas por termos permitido que a situação do transporte público chegasse a esse ponto, que a passagem custe hoje o dobro do que custa nos países vizinhos. Estávamos ocupados investindo em nosso sucesso profissional, preocupados em comprar nosso tão sonhado carro, e não percebemos os empresários gananciosos tomando conta das prefeituras, dos governos, dos parlamentos, dos tribunais.

Perdão por deixar que a precarização também atingisse a saúde, a educação, o trabalho. Por nossa distração, pagamos hoje muito caro por serviços com alguma qualidade, porque o Estado foi encolhendo, embora os impostos não tenham sido reduzidos. Lamentavelmente, arcamos agora com uma infinidade de contas que não existiam quando nascemos, simplesmente porque não eram necessárias. Plano de saúde, pedágio, seguro do carro, da casa, segurança privada. Trabalhamos cada vez mais para ganhar cada vez menos.

Perdão por termos deixado que nosso governo passasse às mãos desses mesmos empresários um patrimônio erguido com o suor de nossos pais, avós, bisavós. Por termos perdido a primazia sobre nossas riquezas naturais, nossos minérios, por leiloar poços de petróleo que tanto custaram a ser descobertos. Perdão por deixar que empresas estrangeiras enriqueçam vendendo aqui serviços e produtos que jamais seriam aceitos em seus países de origem.

Diferentemente de vocês, crescemos sem internet. Nossa imagem do mundo exterior era exclusivamente a que a televisão mostrava. A TV era nossa diversão caseira, e muita gente da minha idade ainda gosta da Xuxa. A TV ajudou a tornar o nosso mundo uma unidade de produção ininterrupta do desejo. Nossa formação, nossa satisfação é baseada no consumo. Sonhávamos com uma carreira profissional vitoriosa que nos garantisse uma boa casa, bons carros. Era esse o modelo que nossos pais idealizavam para nós. Crescemos um tanto narcisistas e acabamos trazendo esse narcisismo às redes sociais, como vocês já notaram. Perdão também por isso.

Felizmente, vocês decidiram dar outra finalidade à internet. Ainda bem. Porque, em nossa distração, deixamos de herança uma imprensa tão vagabunda que vosso movimento não teria a menor chance de frutificar, não fosse por vossa articulação na rede. É que também deixamos um punhado de famílias descompromissadas tomarem conta de praticamente todos os veículos de comunicação. Aí, a opinião deles se tornou a nossa.

Isso ajuda a explicar porque alguns de nós, lendo sobre os protestos, soltemos frases do tipo ‘é uma playboyzada que nem anda de ônibus’. Como disse, aprendemos desde cedo que o importante é cada um cuidar da sua vida. Além daí, nada é problema nosso. Na nossa adolescência, quem falava de política era chato, levava tapa na cabeça. Daí que hoje mantemos viva a estirpe de coronéis que já exploravam nossos pais. Minhas desculpas por essa gente ainda estar no poder. Minhas desculpas sobretudo aos que atingem a maioridade eleitoral, por não terem em quem votar.

Perdão por termos enterrado os partidos, os sindicatos, as associações de bairro. Nosso individualismo nos isolou a tal ponto que perdemos o apreço pelo coletivo. Custamos a entender a forma como vocês se organizam. Não esperem que entendamos.

Perdão por entregarmos a vocês um país onde os 10% mais ricos ganham 40 vezes mais que os 10% mais pobres. Um país campeão mundial absoluto de homicídios, que constrói presídios em vez de escolas.

Perdão por deixar uma classe intelectual dividida entre direita e esquerda, quando o pensamento pode ir muito além disso. Não me admira que essa dicotomia miserável não faça sentido pra vocês.

Perdão pelos rios poluídos, pelas florestas desmatadas, pela insalubridade das grandes cidades, pelas ruas entupidas de carros, pelos barracos à beira dos mangues. Pela comida transgênica, pelos agrotóxicos. Por permitirmos que a filosofia do lucro ilimitado sequestrasse o espaço por onde deveríamos circular livremente.

Perdão por ainda sermos os mesmos e vivermos como nossos pais. Perdão por deixá-los sob a mira das escopetas de um Estado repressivo que vocês pensavam ter acabado com fim do governo militar. Perdão por fazê-los acreditar que não havia mais prisões políticas e arbitrárias.

Resistam. Não percam o foco. Repetindo Zizek: não se apaixonem por si. Canalizem essa força. Não permitam que ela seja capitalizada pelos oportunistas de sempre, não se deixem domesticar.

Nosso mundo está prestes a cair. Que o de vocês seja mais justo.

Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros estamos vivos, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois que cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber – tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade-base da humanidade, é a que o distingue entre tudo no universo“.
(John Steinbeck, As Vinhas da Ira)

Uma cidade sitiada, parida sob o açoite do capital, num país com a taxa de urbanização mais alta do continente. País ditatorial, que fez a transição rural-urbana em tempo recorde, aos gritos de ‘Pra frente, Brasil’. Milagre econômico.

Um poder público conivente, irresponsável, operador de uma expansão irracional e predatória. Boom imobiliário. Marcha inevitável do progresso, da “implosão-explosão”, do sistema auto-reciclável que traz consigo “concentração urbana, êxodo rural, subordinação completa do agrário ao urbano” (LEFEBVRE, Henri. O Direito à Cidade).

Uma classe dirigente que sustenta montadoras estrangeiras com grana nacional, que gera engarrafamentos, acidentes, pedágios, poluição, carros com preços pornográficos, financiamentos escorchantes. Que toma a cidade dos cidadãos, que a transforma num labirinto asfixiante, um triturador que mastiga trabalhadores e cospe o bagaço.

Uma gente que desperdiça parte de sua existência no trajeto casa-trabalho-casa. Que segue sua marcha impotente diante de avenidas, viadutos e arranha-ceús. Expropriação do espaço público.

Um partido de discurso progressista que assume uma prefeitura tradicionalmente fomentadora dessa lógica expiatória. Uma expectativa gerada. Uma nova desilusão. Uma filosofia que vai se desgastando, a do ‘crescimento com redução das desigualdades’, que continua sustentando a ideologia consumista, individualista, ostentatória.

“Proletários e burgueses somem atrás do consumo de bens que só se diferem no refinamento de detalhes. A popularização do carro pode ser vista como um símbolo de uma nova era: produção de objetos em massa para consumo em massa, o trabalhador ascendendo à condição de burguês, embora continue sendo objetivamente trabalhador – ou seja, uma coisa, um ser sem controle da gestão de sua existência e da propriedade -, e à distinção de classes se sobrepondo uma classe única, a dos consumidores” (LUDD, Ned (org.). Apocalipse Motorizado – A tirania do automóvel em um planeta poluído).

A imprensa, a mesma que defendeu o milagre econômico, o boom imobiliário, a marcha do consumo, cumpre seu papel. Volta-se ao varejo de um vidro estilhaçado, do lixo incendiado, de policiais atacados. Reduz-se tudo a 20 centavos.

São Paulo, Rio, Porto Alegre, Goiânia. Natal. Que a marcha mude. Que o homem prevaleça. Que o cidadão retome a cidade para si. Que continuemos, ao menos, sonhando com um país diferente.