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Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros estamos vivos, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois que cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber – tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade-base da humanidade, é a que o distingue entre tudo no universo“.
(John Steinbeck, As Vinhas da Ira)

Uma cidade sitiada, parida sob o açoite do capital, num país com a taxa de urbanização mais alta do continente. País ditatorial, que fez a transição rural-urbana em tempo recorde, aos gritos de ‘Pra frente, Brasil’. Milagre econômico.

Um poder público conivente, irresponsável, operador de uma expansão irracional e predatória. Boom imobiliário. Marcha inevitável do progresso, da “implosão-explosão”, do sistema auto-reciclável que traz consigo “concentração urbana, êxodo rural, subordinação completa do agrário ao urbano” (LEFEBVRE, Henri. O Direito à Cidade).

Uma classe dirigente que sustenta montadoras estrangeiras com grana nacional, que gera engarrafamentos, acidentes, pedágios, poluição, carros com preços pornográficos, financiamentos escorchantes. Que toma a cidade dos cidadãos, que a transforma num labirinto asfixiante, um triturador que mastiga trabalhadores e cospe o bagaço.

Uma gente que desperdiça parte de sua existência no trajeto casa-trabalho-casa. Que segue sua marcha impotente diante de avenidas, viadutos e arranha-ceús. Expropriação do espaço público.

Um partido de discurso progressista que assume uma prefeitura tradicionalmente fomentadora dessa lógica expiatória. Uma expectativa gerada. Uma nova desilusão. Uma filosofia que vai se desgastando, a do ‘crescimento com redução das desigualdades’, que continua sustentando a ideologia consumista, individualista, ostentatória.

“Proletários e burgueses somem atrás do consumo de bens que só se diferem no refinamento de detalhes. A popularização do carro pode ser vista como um símbolo de uma nova era: produção de objetos em massa para consumo em massa, o trabalhador ascendendo à condição de burguês, embora continue sendo objetivamente trabalhador – ou seja, uma coisa, um ser sem controle da gestão de sua existência e da propriedade -, e à distinção de classes se sobrepondo uma classe única, a dos consumidores” (LUDD, Ned (org.). Apocalipse Motorizado – A tirania do automóvel em um planeta poluído).

A imprensa, a mesma que defendeu o milagre econômico, o boom imobiliário, a marcha do consumo, cumpre seu papel. Volta-se ao varejo de um vidro estilhaçado, do lixo incendiado, de policiais atacados. Reduz-se tudo a 20 centavos.

São Paulo, Rio, Porto Alegre, Goiânia. Natal. Que a marcha mude. Que o homem prevaleça. Que o cidadão retome a cidade para si. Que continuemos, ao menos, sonhando com um país diferente.

One Comment

  1. Meu irmão, só você para encher de “cisco” meus olhos…é um privilégio estar e viver nesse atmo de tempo, coexistindo nos mesmos dias.
    beijo grande, forte abraço e sempre braço.


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