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“Meu otimismo está baseado na certeza de que esta civilização vai desmoronar. Meu pessimismo está em tudo aquilo que ela faz para arrastar-nos em sua queda”. (Jean-François Brient, Da Servidão Moderna)

Em nome de minha geração, peço desculpas por termos permitido que a situação do transporte público chegasse a esse ponto, que a passagem custe hoje o dobro do que custa nos países vizinhos. Estávamos ocupados investindo em nosso sucesso profissional, preocupados em comprar nosso tão sonhado carro, e não percebemos os empresários gananciosos tomando conta das prefeituras, dos governos, dos parlamentos, dos tribunais.

Perdão por deixar que a precarização também atingisse a saúde, a educação, o trabalho. Por nossa distração, pagamos hoje muito caro por serviços com alguma qualidade, porque o Estado foi encolhendo, embora os impostos não tenham sido reduzidos. Lamentavelmente, arcamos agora com uma infinidade de contas que não existiam quando nascemos, simplesmente porque não eram necessárias. Plano de saúde, pedágio, seguro do carro, da casa, segurança privada. Trabalhamos cada vez mais para ganhar cada vez menos.

Perdão por termos deixado que nosso governo passasse às mãos desses mesmos empresários um patrimônio erguido com o suor de nossos pais, avós, bisavós. Por termos perdido a primazia sobre nossas riquezas naturais, nossos minérios, por leiloar poços de petróleo que tanto custaram a ser descobertos. Perdão por deixar que empresas estrangeiras enriqueçam vendendo aqui serviços e produtos que jamais seriam aceitos em seus países de origem.

Diferentemente de vocês, crescemos sem internet. Nossa imagem do mundo exterior era exclusivamente a que a televisão mostrava. A TV era nossa diversão caseira, e muita gente da minha idade ainda gosta da Xuxa. A TV ajudou a tornar o nosso mundo uma unidade de produção ininterrupta do desejo. Nossa formação, nossa satisfação é baseada no consumo. Sonhávamos com uma carreira profissional vitoriosa que nos garantisse uma boa casa, bons carros. Era esse o modelo que nossos pais idealizavam para nós. Crescemos um tanto narcisistas e acabamos trazendo esse narcisismo às redes sociais, como vocês já notaram. Perdão também por isso.

Felizmente, vocês decidiram dar outra finalidade à internet. Ainda bem. Porque, em nossa distração, deixamos de herança uma imprensa tão vagabunda que vosso movimento não teria a menor chance de frutificar, não fosse por vossa articulação na rede. É que também deixamos um punhado de famílias descompromissadas tomarem conta de praticamente todos os veículos de comunicação. Aí, a opinião deles se tornou a nossa.

Isso ajuda a explicar porque alguns de nós, lendo sobre os protestos, soltemos frases do tipo ‘é uma playboyzada que nem anda de ônibus’. Como disse, aprendemos desde cedo que o importante é cada um cuidar da sua vida. Além daí, nada é problema nosso. Na nossa adolescência, quem falava de política era chato, levava tapa na cabeça. Daí que hoje mantemos viva a estirpe de coronéis que já exploravam nossos pais. Minhas desculpas por essa gente ainda estar no poder. Minhas desculpas sobretudo aos que atingem a maioridade eleitoral, por não terem em quem votar.

Perdão por termos enterrado os partidos, os sindicatos, as associações de bairro. Nosso individualismo nos isolou a tal ponto que perdemos o apreço pelo coletivo. Custamos a entender a forma como vocês se organizam. Não esperem que entendamos.

Perdão por entregarmos a vocês um país onde os 10% mais ricos ganham 40 vezes mais que os 10% mais pobres. Um país campeão mundial absoluto de homicídios, que constrói presídios em vez de escolas.

Perdão por deixar uma classe intelectual dividida entre direita e esquerda, quando o pensamento pode ir muito além disso. Não me admira que essa dicotomia miserável não faça sentido pra vocês.

Perdão pelos rios poluídos, pelas florestas desmatadas, pela insalubridade das grandes cidades, pelas ruas entupidas de carros, pelos barracos à beira dos mangues. Pela comida transgênica, pelos agrotóxicos. Por permitirmos que a filosofia do lucro ilimitado sequestrasse o espaço por onde deveríamos circular livremente.

Perdão por ainda sermos os mesmos e vivermos como nossos pais. Perdão por deixá-los sob a mira das escopetas de um Estado repressivo que vocês pensavam ter acabado com fim do governo militar. Perdão por fazê-los acreditar que não havia mais prisões políticas e arbitrárias.

Resistam. Não percam o foco. Repetindo Zizek: não se apaixonem por si. Canalizem essa força. Não permitam que ela seja capitalizada pelos oportunistas de sempre, não se deixem domesticar.

Nosso mundo está prestes a cair. Que o de vocês seja mais justo.

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