Skip navigation

“Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. As personalidades individuais desaparecem e o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Ela não pode realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Numa multidão ensandecida é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto. A multidão não constrói. Só tem força para destruir”. (Gustave Le Bon, A multidão: um estudo da mente popular)

As revoltas juninas nasceram de uma manifestação genuína, com foco no transporte público da capital paulista. Um trabalho decano do Movimento Passe Livre. Diante da histórica intransigência-violência estatal, ganhou amplitude e arregimentou outras camadas da sociedade. Tal mistura pode ter esterilizado o germe da mudança.

Não foi ‘o povo’ que saiu às ruas. O Datafolha alega: 78% dos manifestantes do dia 20 de junho tinham nível superior. Em termos nacionais, esse índice é de 12%.

Viu-se uma multidão majoritariamente branca, com pautas difusas e cartazes engraçadinhos. Rostos jovens, filhos da era da velocidade, cumpridores de tarefas múltiplas. Filhos da internet, com seus smartphones. Filhos da contradição: hiperindividualistas, mas anulados em suas subjetividades. Publicam nas redes sociais cada passo de suas vidas.

As redes, notadamente o Facebook, acenaram-lhes com a possibilidade de sair do anonimato. Aí estava uma praça pública, um espaço de expressão. Construiu-se, assim, sobre uma realidade hiperfragmentada, a ilusão de um novo tecido social.

O Facebook atraiu outras gerações, menos familiarizadas, igualmente seduzidas. E nesse espaço vale-tudo, não há filtros: boatos se disseminam, notícias velhas são republicadas, vazios políticos são compartilhados. Potencializa-se o bombardeio midiático surdo e caolho. “A chamada ‘despolitização’ midiática ou tecnológica resulta, por sua vez, do enfraquecimento ético-político das antigas mediações e do fortalecimento da midiatização (…) a tecnointeração toma o lugar da mediação, desviando os atores políticos da prática representativa concreta (norteada por conteúdos valorativos ou doutrinários) para performance imagística”. (SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho).

Cultiva-se na redes sociais um ódio diário, disperso, vazio. Foi este ódio que ganhou as ruas e que pretende enterrar 2,5 mil anos de história política.

One Comment

  1. Tenho essa mesma sensação quando vejo os mascarados. GRande garoto, sempre perspicaz. Abraço!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: