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Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor internacionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria”. (Darcy Ribeiro – O povo brasileiro, 1995)

Somos o povo que mais mata em todo o planeta. Em 2012, assassinamos 50.108 pessoas.

Desfaz-se a imagem de povo pacífico formada em nosso imaginário desde a infância. Formamos uma sociedade imbatível em homicídios, em carnificinas. Farrapos, Canudos, Balaiada, Contestado. Tiradentes, Zumbi, Lampião e seu bando com as cabeças decepadas na capa do jornal, para alívio da multidão. Nossa história mostra quem somos. Mas quem conhece nossa história?

Somos ignorantes de nossa própria ignorância. O acesso à educação foi ampliado, a qualidade, não. Replicamos analfabetos funcionais que, ao contrário dos analfabetos clássicos, são inconscientes de seu déficit. Por isso temos um golpe de Estado mal resolvido, ainda celebrado por alguns de nós. Por isso o refúgio político do ente mais rico da federação ainda exibe o nome dos Bandeirantes, assassinos de índios. A violência estampada em nossas instituições.

Assim, no século 21, ainda decepamos as cabeças de nossos presidiários. Ainda amarramos, açoitamos, arrastamos cadáveres de negros assassinados por nossas ruas. Cenas previsíveis no último país a abolir a escravidão, ato resultante da pressão de fazendeiros paulistas convictos de “que a substituição dos escravos por trabalhadores livres poderia até ser benéfica, porque estes seriam menos caros e mais eficientes do que aqueles”. (Thomas Skidmore – Preto no Branco, 1974). E ainda que a ânsia de lucro tenha abolido o açoite, “As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude e desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era substituído facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão”. (Darcy Ribeiro – O povo brasileiro, 1995).

Ignorantes, violentos, racistas, corruptos. Fazemos tudo para levar vantagem, porque leis e normas não se aplicam a nós. Subornamos o guarda, o fiscal. Comemoramos o gol impedido. Roubado é mais gostoso. Trafegamos na contramão, ultrapassamos pelo acostamento. Nossas pequenas violências. Compramos filmes piratas, maconha, cocaína, mas nem por isto deixamos de vociferar contra a matança decorrente do tráfico, do contrabando.

Desde cedo aprendemos a cultuar a malandragem. Herdamos dos ibéricos o princípio aventureiro, de “colher o fruto sem plantar a árvore” (Sérgio Buarque de Holanda – Raízes do Brasil, 1936). E seguindo essa ideologia, acreditamos que o público é privado: uma vez no poder, trazemos parentes e amigos para sugar o Estado ao máximo antes de o abandonarmos. Confiamos “sempre em pessoas e em relações (como nos contos de fadas), nunca em regras gerais ou em leis universais” (Roberto da Matta – Carnavais, Malandros e Heróis, 1979).

Fruto de uma experiência civilizatória malsucedida, teimamos em deixar nosso estágio animal. Aceitamos a prevalência do instinto sobre o intelecto. Acreditamos que a vítima do estupro é também responsável pelo estupro por usar roupas curtas. Acreditamos que Direitos Humanos são coisa de bandido, aceitando nossa desumanidade, nossa animalidade. E como animais, resta-nos a lei do olho por olho, a lei do mais forte. Tentar compreender porque produzimos tantos criminosos, porque matamos tanto, é tarefa para além de nossas capacidades.

 

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