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Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. (George Santayana – Vida da Razão, 1905).

1888. Pedro II viaja ao exterior. A regente Princesa Isabel assina a Lei Áurea. O Brasil era o único no continente a manter escravos. A cúpula da monarquia vislumbrou negros livres como trabalhadores assalariados e, consequentemente, consumidores, em consonância com a revolução industrial. Agradou aos ingleses, desagradou à Casa Grande escravista. Cafeeiros exigem indenizações pelos prejuízos que a abolição lhes causara. Ignorados pelo imperador, aderem ao movimento republicano. Naquele fim de século 19, o café brasileiro tinha nos Estados Unidos seu principal consumidor. Qualquer impacto na produção da commodity ressoava no irmão rico do norte.

Mais uma audácia do imperador poliglota que gastava dinheiro em fortalezas, bancava estudos de brasileiros no exterior, perdia tempo concedendo audiência a cidadãos comuns. Ele já avisava: “Sem educação generalizada nunca haverá boas eleições”.

Jornais republicanos o atacam. Ele aceita as críticas, assim como aceitava a existência de um partido republicano num regime monárquico. A oposição era liderada por Rui Barbosa, que anos mais tarde queimaria os registros de escravos e arruinaria a economia da República na crise do encilhamento.

No ano seguinte, a monarquia organiza o Baile da Ilha Fiscal, com o requinte costumeiro, para comemorar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde D’Eu. 9 de novembro, ilha decorada, iluminada, mobília nova. Os jornais retratam a festa, frequentada por quem “só tem vivido de corrupção, pela corrupção e para a corrupção“.

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O Baile da Ilha Fiscal, de Francisco Figueiredo

Uma semana depois, os golpistas proclamam a República, mesmo com apenas um deputado republicano eleito para o congresso.

Na madrugada, militares entram na residência oficial, levam a família imperial ao porto e embarcam-na para a Europa. Pedro II perdera a utilidade. Morreria em Paris 2 anos mais tarde. Seu último pedido estava num bilhete, junto de um pacote lacrado em seu quarto: “É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”.

Um governante é refém de seu tempo, da sociedade que representa. Pedro II era um amante das letras governando um país de analfabetos.

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Com o imperador fora de combate, uma “comissão de cinco membros, sob orientação de Rui Barbosa, elaborou a nova Constituição, uma cópia mais ou menos fiel da americana. Instituiu-se o federalismo. O país passou a chamar-se Estados Unidos do Brasil”. (Luiz Alberto Moniz Bandeira – Presença dos Estados Unidos no Brasil, 1972).

Não acredito que na fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas“. (Graça Aranha – Canaã, 1902)

1930. A Aliança Liberal liderada por Getúlio Vargas dá um golpe na República e assume o governo. Para governar de fato, fecha o congresso, ergue o Estado Novo. Cria o Departamento de Imprensa e Propaganda para manter jornais na coleira. Cria CLT, Justiça do Trabalho, salário mínimo, carteira profissional, férias remuneradas. Permite o voto às mulheres. Funda a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a hidrelétrica do São Francisco, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A Casa Grande se revolta. Porque, neste novo estado, a União não mais compraria os estoques de fazendeiros mineiros e paulistas a cada queda internacional do preço do café. O prejuízo da oligarquia cafeeira seria só da oligarquia cafeeira. Mesmo com o apoio do consulado americano, São Paulo fracassa em sua primeira tentativa de golpe em 1932. Mas sai vitorioso na segunda, em 1945. O Brasil não vive muito tempo sem um golpe de Estado. Vargas é deposto pelo Exército, impedido de se candidatar às eleições e isolado no interior gaúcho.

Os “braços do povo” conduzem o caudilho ao governo novamente em 1950. Ele retoma o projeto nacionalista. Começa a campanha “O Petróleo é Nosso”, impedindo estrangeiros de explorar o petróleo nacional. Nasce a Petrobras. Os Estados Unidos se irritam com a teimosia, seus estudos já haviam alertado não haver petróleo no Brasil.

Num ato ousado, Vargas limita em 10% as remessas de lucros de empresas estrangeiras às matrizes. A imprensa ataca, em parceria com a UDN de Carlos Lacerda: o governo é corrupto e nepotista.

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Atentado em 54, Lacerda leva um tiro no pé. O major da Aeronáutica Rubens Vaz, seu segurança, morre. O autor dos tiros, Alcino João do Nascimento, era ligado à guarda pessoal de Vargas. O inquérito policial acaba transferido para a Aeronáutica. O Estado Novo dá lugar à República do Galeão. Os militares exigem a renúncia, o palácio presidencial é cercado. Vargas dá um tiro no peito. Era um visionário à frente de uma horda de cegos.

Café Filho assume e volta a liberar o fluxo de capitais pelo país. O FMI desembarca no Brasil com o Relatório Bernstein e a cantilena do mercado livre. O sistema sorri.

Tem valor decisivo mesmo para o povo compreender que o Brasil é uma nação dominada  econômica e politicamente por outras nações. Sem alcançar isto o povo  brasileiro não conseguirá compreender profunda e realmente nada do que se  passa na sua vida interna e nas suas relações internacionais”. (Wanderley Guilherme dos Santos – Quem dará o golpe no Brasil, 1962)

1964. Mas o nacionalismo é um ideal. Ideias não morrem. E lá está novamente, à frente do país, um homem propondo aumentar a participação do Estado na economia, reforma agrária, urbana, bancária, ampliação de direitos trabalhistas. O fantasma de Vargas recusa-se a deixar o palácio presidencial.

O Congresso tentara alijar João Goulart, mas um plebiscito no ano anterior havia restaurado o regime presidencialista. O Ibope apontava o presidente favorito para vencer as eleições seguintes. “O Brasil estava irreconhecivelmente inteligente” (Roberto Schwarz – Cultura e política, 1964-1969), apesar da recessão econômica.

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A metrópole perde a paciência, inicia-se a Operação Brother Sam. A imprensa brasileira faz o que sempre fez.

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Em pouco tempo, a secular linhagem de iletrados e entreguistas toma as ruas de São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

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Em 1º de abril, militares assumem o comando. Goulart acaba exilado no Uruguai, morre 12 anos depois, na Argentina, em circunstâncias ainda suspeitas. Era um nacionalista sem uma nação.

No período militar, o sistema dispensa a fantasia. Assassinatos, tortura, desaparecimento, prisões. Banqueiros, empresários,  e grupos de mídia bancam financeira e operacionalmente os crimes. O Grupo Folha empresta seus carros para captura de opositores à ditadura.

O fim do governo Goulart ratifica a subalternidade brasileira às nações hegemônicas, potencializando o entreguismo. A dívida do país, neste intervalo, sobe de U$ 2,5 bilhões para mais de U$ 100 bi (Reinaldo Gonçalves e Valter Pomar – O Brasil Endividado, 2000). Para prolongar a vida útil da ditadura, extingue-se as disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino médio. Iletrados diplomados cresceriam em progressão geométrica.

Quando o governo militar perde sentido, concebe-se a distensão lenta, gradual e segura para o “regime democrático”. Mas o sistema permanece com a estrutura intacta, disponível para casos emergenciais.

No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do Vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes – Janio Quadros e João Goulart – antes que o Marechal Castelo Branco, que tomou o poder em 1964, os cedesse a Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do Embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-51) tinha concedido à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os quarenta milhões de toneladas do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, em troca de pouco mais de um por cento para o Estado Brasileiro sobre as rendas de exportação”. (Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina, 1970).

2016. O governo do Partido dos Trabalhadores acreditou não ser besta pra tirar onda de herói. Aproveitou a demanda mundial por commodities para crescer o PIB, trocando os EUA pela China como principal parceiro. Conseguiu aumentar a renda do trabalhador, tirou o país do mapa da fome. Mas sempre flertando com a Casa Grande, abraçado com velhas oligarquias, de braços dados com empreiteiros criminosos, mantendo o rentismo a consumir metade do orçamento nacional. Tentativas de não reativar o sistema.

O flerte se estende ao punhado de famílias controladoras de informação. Eleito, Lula concede exclusiva ao Fantástico. Incrivelmente, ele a Globo parecem amigos. Mesmo após Miriam Cordeiro,  após Abílio Diniz. Mesmo após o debate de 89, a ficha falsa de Dilma, a campanha do mensalão.

A imprensa assume o golpismo publicamente, “fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada“.O ministro que conhece as entranhas da mídia avisa da necessidade de uma regulação. O PT não ouve, mantém os golpistas bem alimentados com bilhões dos cofres federais, renova a concessão da Globo apesar da dívida de R$ 600 milhões ao fisco, da programação sofrível.

Mas nem todos os agrados conseguem esconder a proteção ao pré-sal. O governo anterior deixara a Petrobras empenhada ao FMI, o PT ousou interromper o processo de entrega. A espionagem americana, as correspondências entre José Serra e a Chevron, o processo na corte americana, a tentativa no Senado de tirar a participação da Petrobras dos poços descobertos, eram avisos claros: o petróleo não é de vocês.

Bombas semióticas

O governo bate o pé, põe o pré-sal sob regime de partilha, vincula seus royalties à Educação. Denuncia a espionagem norte-americana, inicia a construção de um submarino nuclear, compra caças da Suécia com transferência de tecnologia, constrói cargueiro militar para concorrer com o Hercules.

O Brasil não vive muito tempo sem um golpe. O PT quis enfrentar o sistema sem desmantelar sua estrutura. Dilma foi presidente honesta de uma gente desonesta desde o berço. Um governante é refém de seu tempo. A qualquer tempo. A História bate à porta.

Muito antes das reservas de petróleo serem exauridas, a maioria dos países não terão mais acesso a elas, mesmo se localizadas em seus territórios. Elas passarão a ser controladas por forças militares das potências hegemônicas para garantir-lhes o suprimento necessário, enquanto dure”. (J.W. Bautista Vidal – O Esfacelamento da Nação, 1994)

 

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