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Category Archives: Histórico

Unconvencional warfare: estratégia norte-americana de explorar vulnerabilidades políticas em dado país, por meio do “desenvolvimento e suporte a movimentos de resistência”, visando atingir objetivos estratégicos. “Tão importante quanto a guerra tradicional”, tal modalidade consiste em, entre outras táticas, “separar o inimigo de sua população”, retratando-o como “efetivamente incapaz” de governá-la. A “arte de refrear o poder” em estágio talvez não vislumbrado por Henry Kissinger.

Hillary Clinton a chamará Smart Power, “o leque de ferramentas à nossa disposição – diplomáticas, econômicas, militares, políticas, legais e culturais” para solução de conflitos que o mundo “não pode resolver sem a América”.

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O harvardiano Joseph Nye introduz o termo nas relações internacionais como “a capacidade de combinar Hard e Soft power em uma estratégia vencedora“. Líbia, Honduras e Brasil são exemplos de vitória.

A Nicarágua de Daniel Ortega motivou a explosão do crack, primeiro nos domínios do Tio Sam, depois pelo planeta.

Os norte-americanos conseguiram se livrar de Sandino em 1934, com a ajuda do aliado Anastacio Somoza, “o nosso filho da puta”. Acabaram expulsos em 79, por um levante que levou o nome de Sandino. Tentaram financiar os contrarrevolucionários, o Congresso vetou. Para levantar grana, a Casa Branca, então, passou a traficar armas para o Irã e cocaína para dentro do próprio território, enquanto o casal Reagan declarava guerra às drogas.

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O tráfico, desde sempre financiando os EUA.

O caso só veio à tona em 1988, quando senadores acusaram envolvimento da CIA no tráfico. Dez anos mais tarde, quase explodiu quando o inspetor geral da CIA Frederick Hitz admitiu ao Congresso o envolvimento da agência.

Foi a vez do casal Clinton, como bons bezerros, irem para o sacrifício. O blowjob da estagiária abafa o caso. Smart, Hillary.

2018, mesma Nicarágua, mesmo Ortega. Agora, negociando com chineses um canal transoceânico alternativo ao panamenho, trazendo os russos pra dentro de casa com sua estação de satélite.  A Casa Branca decide pelo sufoco financeiro.

Era da instantaneidade, oposicionistas nicaraguenses posam ao lado de congressistas norte-americanos. Novamente, grana do Tio Sam financiando a revolta, ora via organizações sem fins lucrativos. Grana de onde?

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Cadáver devidamente sepultado, tratemos do espólio. Conforme acordado com José Serra, as petrolíferas gringas ficam com o pré-sal.

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A imprensa que, repetindo a história com a Petrobras, desqualificara o pré-sal, muda de opinião.

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A Exxon, recuperando o investimento feito nas passeatas pró-impeachment, lambe os beiços.

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Grupos como o Ultra-Von Mises também cobram sua parte no butim.

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Os soldados que lideraram as hordas urbanas abandonam o discurso “não temos partido”.

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Mais discreto, Paulo Lemman usa um infliltrado para abocanhar o setor elétrico. Com a palavra, os funcionários da Eletrobras.

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A velha vassalagem é recauchutada. Os grupos de mídia recebem seus trocados. Welcome back, tio Sam.

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Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. (George Santayana – Vida da Razão, 1905).

1888. Pedro II viaja ao exterior. A regente Princesa Isabel assina a Lei Áurea. O Brasil era o único no continente a manter escravos. A cúpula da monarquia vislumbrou negros livres como trabalhadores assalariados e, consequentemente, consumidores, em consonância com a revolução industrial. Agradou aos ingleses, desagradou à Casa Grande escravista. Cafeeiros exigem indenizações pelos prejuízos que a abolição lhes causara. Ignorados pelo imperador, aderem ao movimento republicano. Naquele fim de século 19, o café brasileiro tinha nos Estados Unidos seu principal consumidor. Qualquer impacto na produção da commodity ressoava no irmão rico do norte.

Mais uma audácia do imperador poliglota que gastava dinheiro em fortalezas, bancava estudos de brasileiros no exterior, perdia tempo concedendo audiência a cidadãos comuns. Ele já avisava: “Sem educação generalizada nunca haverá boas eleições”.

Jornais republicanos o atacam. Ele aceita as críticas, assim como aceitava a existência de um partido republicano num regime monárquico. A oposição era liderada por Rui Barbosa, que anos mais tarde queimaria os registros de escravos e arruinaria a economia da República na crise do encilhamento.

No ano seguinte, a monarquia organiza o Baile da Ilha Fiscal, com o requinte costumeiro, para comemorar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde D’Eu. 9 de novembro, ilha decorada, iluminada, mobília nova. Os jornais retratam a festa, frequentada por quem “só tem vivido de corrupção, pela corrupção e para a corrupção“.

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O Baile da Ilha Fiscal, de Francisco Figueiredo

Uma semana depois, os golpistas proclamam a República, mesmo com apenas um deputado republicano eleito para o congresso.

Na madrugada, militares entram na residência oficial, levam a família imperial ao porto e embarcam-na para a Europa. Pedro II perdera a utilidade. Morreria em Paris 2 anos mais tarde. Seu último pedido estava num bilhete, junto de um pacote lacrado em seu quarto: “É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”.

Um governante é refém de seu tempo, da sociedade que representa. Pedro II era um amante das letras governando um país de analfabetos.

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Com o imperador fora de combate, uma “comissão de cinco membros, sob orientação de Rui Barbosa, elaborou a nova Constituição, uma cópia mais ou menos fiel da americana. Instituiu-se o federalismo. O país passou a chamar-se Estados Unidos do Brasil”. (Luiz Alberto Moniz Bandeira – Presença dos Estados Unidos no Brasil, 1972).

Não acredito que na fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas“. (Graça Aranha – Canaã, 1902)

1930. A Aliança Liberal liderada por Getúlio Vargas dá um golpe na República e assume o governo. Para governar de fato, fecha o congresso, ergue o Estado Novo. Cria o Departamento de Imprensa e Propaganda para manter jornais na coleira. Cria CLT, Justiça do Trabalho, salário mínimo, carteira profissional, férias remuneradas. Permite o voto às mulheres. Funda a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a hidrelétrica do São Francisco, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A Casa Grande se revolta. Porque, neste novo estado, a União não mais compraria os estoques de fazendeiros mineiros e paulistas a cada queda internacional do preço do café. O prejuízo da oligarquia cafeeira seria só da oligarquia cafeeira. Mesmo com o apoio do consulado americano, São Paulo fracassa em sua primeira tentativa de golpe em 1932. Mas sai vitorioso na segunda, em 1945. O Brasil não vive muito tempo sem um golpe de Estado. Vargas é deposto pelo Exército, impedido de se candidatar às eleições e isolado no interior gaúcho.

Os “braços do povo” conduzem o caudilho ao governo novamente em 1950. Ele retoma o projeto nacionalista. Começa a campanha “O Petróleo é Nosso”, impedindo estrangeiros de explorar o petróleo nacional. Nasce a Petrobras. Os Estados Unidos se irritam com a teimosia, seus estudos já haviam alertado não haver petróleo no Brasil.

Num ato ousado, Vargas limita em 10% as remessas de lucros de empresas estrangeiras às matrizes. A imprensa ataca, em parceria com a UDN de Carlos Lacerda: o governo é corrupto e nepotista.

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Atentado em 54, Lacerda leva um tiro no pé. O major da Aeronáutica Rubens Vaz, seu segurança, morre. O autor dos tiros, Alcino João do Nascimento, era ligado à guarda pessoal de Vargas. O inquérito policial acaba transferido para a Aeronáutica. O Estado Novo dá lugar à República do Galeão. Os militares exigem a renúncia, o palácio presidencial é cercado. Vargas dá um tiro no peito. Era um visionário à frente de uma horda de cegos.

Café Filho assume e volta a liberar o fluxo de capitais pelo país. O FMI desembarca no Brasil com o Relatório Bernstein e a cantilena do mercado livre. O sistema sorri.

Tem valor decisivo mesmo para o povo compreender que o Brasil é uma nação dominada  econômica e politicamente por outras nações. Sem alcançar isto o povo  brasileiro não conseguirá compreender profunda e realmente nada do que se  passa na sua vida interna e nas suas relações internacionais”. (Wanderley Guilherme dos Santos – Quem dará o golpe no Brasil, 1962)

1964. Mas ideias não morrem. E lá está novamente, à frente do país, um homem propondo aumentar a participação do Estado na economia, reforma agrária, urbana, bancária, ampliação de direitos trabalhistas. O fantasma de Vargas recusa-se a deixar o palácio presidencial.

O Congresso tentara alijar João Goulart, mas um plebiscito no ano anterior havia restaurado o regime presidencialista. O Ibope apontava o presidente favorito para vencer as eleições seguintes. “O Brasil estava irreconhecivelmente inteligente” (Roberto Schwarz – Cultura e política, 1964-1969), apesar da recessão econômica.

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A metrópole perde a paciência, inicia-se a Operação Brother Sam. A imprensa brasileira faz o que sempre fez.

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Em pouco tempo, a secular linhagem de iletrados e entreguistas toma as ruas de São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

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Em 1º de abril, militares assumem o comando. Goulart acaba exilado no Uruguai, morre 12 anos depois, na Argentina, em circunstâncias ainda suspeitas. Era um nacionalista sem uma nação.

No período militar, o sistema dispensa a fantasia. Assassinatos, tortura, desaparecimento, prisões. Banqueiros, empresários e grupos de mídia bancam financeira e operacionalmente os crimes. O Grupo Folha empresta seus carros para captura de opositores à ditadura.

O fim do governo Goulart ratifica a subalternidade brasileira às nações hegemônicas, potencializando o entreguismo. A dívida do país, neste intervalo, sobe de U$ 2,5 bilhões para mais de U$ 100 bi (Reinaldo Gonçalves e Valter Pomar – O Brasil Endividado, 2000). Para prolongar a vida útil da ditadura, extingue-se as disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino médio. Iletrados diplomados cresceriam em progressão geométrica.

Quando o governo militar perde sentido, concebe-se a distensão lenta, gradual e segura para o “regime democrático”. Mas o sistema permanece com a estrutura intacta, disponível para casos emergenciais.

No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do Vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes – Janio Quadros e João Goulart – antes que o Marechal Castelo Branco, que tomou o poder em 1964, os cedesse a Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do Embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-51) tinha concedido à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os quarenta milhões de toneladas do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, em troca de pouco mais de um por cento para o Estado Brasileiro sobre as rendas de exportação”. (Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina, 1970).

2016. O governo do Partido dos Trabalhadores acreditou não ser besta pra tirar onda de herói. Aproveitou a demanda mundial por commodities para crescer o PIB, trocando os EUA pela China como principal parceiro. Conseguiu aumentar a renda do trabalhador, tirou o país do mapa da fome. Mas sempre flertando com a Casa Grande, abraçado com velhas oligarquias, de braços dados com empreiteiros criminosos, mantendo o rentismo a consumir metade do orçamento nacional. Tentativas de não reativar o sistema.

O flerte se estende ao punhado de famílias controladoras de informação. Eleito, Lula concede exclusiva ao Fantástico. Incrivelmente, ele a Globo parecem amigos. Mesmo após Miriam Cordeiro,  após Abílio Diniz. Mesmo após o debate de 89, a ficha falsa de Dilma, a campanha do mensalão.

A imprensa assume o golpismo publicamente, “fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada“.O ministro que conhece as entranhas da mídia avisa da necessidade de uma regulação. O PT não ouve, mantém os golpistas bem alimentados com bilhões dos cofres federais, renova a concessão da Globo apesar da dívida de R$ 600 milhões ao fisco, da programação sofrível.

Mas nem todos os agrados conseguem esconder a proteção ao pré-sal. O governo anterior deixara a Petrobras empenhada ao FMI, o PT ousou interromper o processo de entrega. A espionagem americana, as correspondências entre José Serra e a Chevron, o processo na corte americana, a tentativa no Senado de tirar a participação da Petrobras dos poços descobertos, eram avisos claros: o petróleo não é de vocês.

Bombas semióticas

O governo bate o pé, põe o pré-sal sob regime de partilha, vincula seus royalties à Educação. Denuncia a espionagem norte-americana, inicia a construção de um submarino nuclear, compra caças da Suécia com transferência de tecnologia, constrói cargueiro militar para concorrer com o Hercules.

O Brasil não vive muito tempo sem um golpe. O PT quis enfrentar o sistema sem desmantelar sua estrutura. Dilma foi presidente honesta de uma gente desonesta desde o berço. Um governante é refém de seu tempo. A qualquer tempo. A História bate à porta.

Muito antes das reservas de petróleo serem exauridas, a maioria dos países não terão mais acesso a elas, mesmo se localizadas em seus territórios. Elas passarão a ser controladas por forças militares das potências hegemônicas para garantir-lhes o suprimento necessário, enquanto dure”. (J.W. Bautista Vidal – O Esfacelamento da Nação, 1994)

 

Tudo o que afeta a imaginação das multidões apresenta-se sob a forma de uma imagem comovente e clara, desprovida de interpretação acessória ou não tendo outro acompanhamento senão alguns fatos admiráveis: uma grande vitória, um grande milagre, um grande crime, uma grande esperança. É importante apresentar as coisas em bloco, sem jamais explicar sua gênese.
    (…) não são os fatos em si que afetam a imaginação popular, mas o modo como se apresentam. Por condensação, se assim posso me exprimir, esses fatos devem produzir uma imagem impactante que preencha e atormente o espírito. Conhecer a arte de impressionar a imaginação das multidões é conhecer a arte de governá-las”. (Gustave Le Bon, Psicologia das Multidões)

Houve marcha também em 1964. O governo federal propunha aumentar a participação do Estado na economia, reforma agrária, ampliação de direitos trabalhistas. Pequenos passos que alimentavam o sonho de deixar, enfim, a condição histórica de colônia.

Utilizando-se da imprensa local, o sistema convenceu a massa de estar sob os desmandos de um presidente corrupto e comunista. A massa caiu, o governo também. Instaurou-se uma ditadura por mais de duas décadas, com saldo de quase 500 opositores assassinados, famílias destruídas e uma dívida externa impagável.

O genocídio arranhou a imagem de povo pacífico que o país tentava vender ao mundo. A ditadura foi se tornando cara, obsoleta, incômoda, até ser declarada oficialmente extinta. Adotou-se um regime institucional com verniz democrático, mas ainda fechado à participação popular. E o sistema que havia engendrado o golpe de Estado passou, cinicamente, a considerar aquele um capítulo triste da história nacional. Chegara, enfim, um tempo de liberdade política.

Mas a semente estava plantada. Em 1971, o sistema banira as disciplinas de Filosofia e de Sociologia do ensino médio. A Filosofia, força motriz de todas as grandes sociedades da história, de gregos a iluministas, aquela sem a qual nenhuma nação se liberta.

Lá se vão mais de 40 anos. Uma geração inteira ceifada de sua capacidade reflexiva marcha pelas ruas. Marcha nova, discurso velho. O fantasma do Marxismo volta a assombrar a classe média. A história se repetindo.

O sistema é foda. Fez um país produtor de cana há 500 anos, mantém esse país vendendo cana até hoje. Moldou a educação para formatar uma força de trabalho tropical cada vez mais barata, produtiva, desmemoriada, teleguiada.

O 15 de março de 2015 assegura ao sistema que suas engrenagens seguem funcionando. E que passamos 50 anos caminhando em círculos.

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Give me control of a nation’s money supply, and I care not who makes its laws“.
Mayer Amschel Rothschild (1744-1812)

Estados Unidos da América, Natal de 1913. O presidente Woodrow Wilson convoca os senadores para votar o projeto de lei que cria o Federal Reserve (FED). Banco central autônomo. Em meio aos festejos natalinos, apenas três senadores atendem à convocação. O projeto é aprovado. Enquanto os norteamericanos comem peru, o governo transfere ao FED, uma instituição privada criada por banqueiros, o poder de controlar a circulação de moeda no país. Eles, só eles, poderiam emitir dólares e emprestá-los a juros (CERQUEIRA, 2013).

Estados Unidos da América, julho de 1944. Conferência de Bretton Woods. Estados Unidos dos Rotschild, dos Warburg. Dos Rockefeller, dos Morgan, dos Carnegie. Detentores da maior reserva mundial de ouro, obtida como pagamento pelo financiamento das duas grandes guerras, os banqueiros definem o dólar como referência financeira mundial. O ouro lastreava a moeda: 35 dólares valiam 31,1 gramas do nobre metal. Só com a moeda deles poderia-se, a partir de então, fazer negócios internacionais.

Estados Unidos da América, 4 de junho de 1963. O presidente John F. Kennedy percebe a armadilha. A nação mais próspera do planeta fora aprisionada por banqueiros. Kennedy assina a Ordem Executiva 11.110, devolvendo ao governo norteamericano o poder de emitir sua própria moeda. Cinco meses depois, Kennedy foi passear em Dallas e nunca mais voltou.

Os banqueiros já eram grandes demais. Lyndon Johnson, sucessor de Kennedy, entendeu isso e devolveu os poderes ao FED.

Ouro de tolo

Para financiar a reconstrução de uma Europa arrasada pela Segunda Guerra, cria-se o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituições que fariam empréstimos também aos países pobres: latinos, africanos, asiáticos. A elite banqueira expandia, assim, sua cartela de clientes.

Mas a paridade com o ouro limitava os empréstimos. Mais dólares, só com mais ouro. Era preciso aumentar os lucros.

Estados Unidos da América, agosto de 1971. O presidente Richard Nixon revoga a paridade ouro-dólar. A quantidade de moeda em circulação não mais deveria corresponder à quantidade de ouro disponível no FED. O dólar passava a ser a garantia de si próprio. O banco, agora, podia emitir moeda a seu bel prazer. Aumentava a oferta de crédito nos bancos internacionais, a taxas módicas de 5% ao ano.

Novos índios, novos espelhos

Brasil, década de 70. Um país sob uma ditadura militar, fruto de um golpe de Estado financiado pelos Estados Unidos da América (CHIAVENATO, 1994) e apoiado pela imprensa local, que passara três anos atacando o governo João Goulart. Um país que sempre precisa de dinheiro, habitado por uma gente de incapacidade latente. Um país já endividado junto à Coroa Britânica para pagar sua independência, para poder enfrentar e vencer o vizinho Paraguai. Um país inviável.

Os bancos se multiplicam, se ramificam. O governo militar toma mais empréstimos. A regra muda no meio do jogo. Em 1981, FED e bancos brtânicos aumentam os juros para 20,5%. A dívida brasileira, durante os governos militares, sobe de U$ 2,5 bilhões para mais de U$ 100 bi (GONÇALVES e POMAR, 2000).

Xeque-mate. O Brasil não pode pagar. Sem cash, é obrigado a assinar seu primeiro acordo com o FMI, em 1983. Os termos: corte de gastos públicos, privatizações, lucro do Tesouro Nacional atrelado ao pagamento da dívida. Mais: o Banco Central do Brasil deve assumir a dívida dos Estados e das empresas.

O Caçador

collor_VejaBrasil, década de 90. O povo quer mudança. O Estado deve ser alijado da economia, mantê-lo é caro demais. A mudança, então, é Fernando Collor, o candidato da imprensa. Da meia dúzia de famílias que forma a opinião pública nacional. É ele quem vai comandar o desmonte do Estado, iniciando as privatizações, abrindo as portas às importações, reduzindo os impostos sobre remessas de dinheiro das multinacionais para o exterior de 25% para 15%.

Mas Collor mostra-se politicamente inviável em sua ortodoxia. Ao reduzir os ministérios em uma dezena, desagrada os caciques do Congresso Nacional. Ao confiscar as poupanças, convencido por economistas como André Lara Resende, provoca a ira dos poupadores. Collor cai. Os banqueiros precisam de um novo rosto para encampar seu projeto.

O Príncipe

Brasil, 1994. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, homem da esquerda, exilado pela ditadura militar, é eleito à presidência, trazendo com ele André Lara Resende. A alíquota sobre remessas ao exterior, que Collor baixara a 15%, é zerada. A dívida é transformada em títulos negociáveis no Mercado – entidade diante da qual todos devem, agora, se curvar. As taxas de juros ofertadas aos investidores chegam a incríveis 45%. O país inviável, para refinanciar sua dívida, se endivida ainda mais.

Sob a batuta de FHC, bancos internacionais compram os nacionais, espalhando seus tentáculos por terras tupiniquins. Com os juros em alta, eles abocanham os títulos da dívida, mais rentáveis e com risco praticamente zero. O crédito para investimentos produtivos desaparece.

O sociólogo mostra-se eficiente. Deve ficar mais tempo. Seu staff suborna congressistas, a emenda da reeleição é aprovada.

Quando FHC deixa o Planalto, haviam sido privatizadas rodovias, companhias elétricas, Vale do Rio Doce, Telebrás, Banespa. Estavam encaminhadas as vendas de Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras. A carga tributária havia subido de 26% para 32% do PIB. Mas apesar disso, a dívida brasileira saltara de R$ 153 bilhões para R$ 892 bilhões. Mais da metade do Produto Interno Bruto nacional. E o país teve que fazer três novos empréstimos junto ao FMI e Banco Mundial.

privatizaO desemprego aumenta. O corte de gastos, a redução dos salários e aposentadorias provocam retração do consumo. Sem vender, empresas reduzem a produção, demitem. O povo se revolta, quer mudança. Novamente, é necessário um novo rosto.

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O Sapo

Um metalúrgico de origem humilde, líder de um partido historicamente contrário ao império dos bancos, derrotado por Collor e FHC nos pleitos anteriores, mostra-se cansado de perder. Percebe que Vargas e Goulart, os dois últimos a contrariar os interesses banqueiros, caíram. Parece, enfim, convencido de que o país é inviável. Escreve uma carta ao povo, compromete-se a seguir as regras do jogo. O povo não lê a carta.

Brasil, 2002. Luiz Inácio Lula da Silva assume o posto de FHC. Jura fidelidade ao Mercado. A dívida continua a subir, os bancos ampliam seus lucros. Alguns deles, em até 1.000% ao ano. Mas no meio do caminho havia uma pedra.

Uma década se passa e o partido do metalúrgico não vende os bancos, nem a Petrobras. Ao contrário: investe nos primeiros, aumentando a oferta de crédito a juros menores do que aqueles oferecidos pelo Mercado. Reduz-se as taxas de juros: 25, 20, 15, 10. Permite-se que pessoas físicas possam também comprar esses títulos. A rentabilidade dos títulos cai. O Mercado perde o monopólio, sente-se ultrajado. O partido do metalúrgico mostra-se rebelde.

A imprensa denuncia: o Estado está inchado, a inflação vai voltar. Novamente, o povo é convencido de que sustenta os marajás, mesmo que os gastos com a dívida sejam 4 vezes superiores e representem metade do orçamento nacional.

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O partido acena com um projeto de regulação da mídia, ameaçando a meia dúzia de famílias que publica o que quer. Porém, tão inviável quanto seus leitores, também ela está endividada e fala em nome dos banqueiros. O partido do metalúrgico é gastador. E o rosto que era novo está desgastado.

A Evangélica Verde

Brasil, 2014. O povo quer mudança, mas o Mercado não encontra um rosto convincente. Um avião cai, as nuvens se dissipam. Uma professora de origem humilde, da esquerda, com histórico de luta em defesa do meio ambiente, dos povos da Amazônia, surge como alternativa à velha política. Marina Silva é a menina dos olhos da Open Society Foundation, do megainvestidor George Soros.

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Marina promete autonomia a um Banco Central já combalido por rentistas. Woodrow Wilson sorri no túmulo.

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Marina traz com ela André Lara Resende, o velho conselheiro de Collor e FHC. O Mercado a saúda, o povo abre os braços ao novo, ressignificado.

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Os bancos, invencíveis, aprenderam a mercantilizar a esperança. E o Brasil é um país inviável.

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I place economy among the first and most important virtues and public debt as the greatest of dangers to be feared. To preserve our independence, we must not let our rulers load us with public debt“.
(Thomas Jefferson, 1743-1823)

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Referências:
– Auditoria Cidadã da Dívida. http://www.auditoriacidada.org.br
– CHIAVENATO, Júlio José. O Golpe de 64 e a Ditadura Militar. São Paulo: Moderna, 1994.
– GONÇALVES, Reinaldo; POMAR, Valter. O Brasil Endividado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000
– CERQUEIRA, RNF. A Babel Illuminati. São Paulo: Ixtlan, 2013.

“Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. As personalidades individuais desaparecem e o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Ela não pode realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Numa multidão ensandecida é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto. A multidão não constrói. Só tem força para destruir”. (Gustave Le Bon, A multidão: um estudo da mente popular)

As revoltas juninas nasceram de uma manifestação genuína, com foco no transporte público da capital paulista. Um trabalho decano do Movimento Passe Livre. Diante da histórica intransigência-violência estatal, ganhou amplitude e arregimentou outras camadas da sociedade. Tal mistura pode ter esterilizado o germe da mudança.

Não foi ‘o povo’ que saiu às ruas. O Datafolha alega: 78% dos manifestantes do dia 20 de junho tinham nível superior. Em termos nacionais, esse índice é de 12%.

Viu-se uma multidão majoritariamente branca, com pautas difusas e cartazes engraçadinhos. Rostos jovens, filhos da era da velocidade, cumpridores de tarefas múltiplas. Filhos da internet, com seus smartphones. Filhos da contradição: hiperindividualistas, mas anulados em suas subjetividades. Publicam nas redes sociais cada passo de suas vidas.

As redes, notadamente o Facebook, acenaram-lhes com a possibilidade de sair do anonimato. Aí estava uma praça pública, um espaço de expressão. Construiu-se, assim, sobre uma realidade hiperfragmentada, a ilusão de um novo tecido social.

O Facebook atraiu outras gerações, menos familiarizadas, igualmente seduzidas. E nesse espaço vale-tudo, não há filtros: boatos se disseminam, notícias velhas são republicadas, vazios políticos são compartilhados. Potencializa-se o bombardeio midiático surdo e caolho. “A chamada ‘despolitização’ midiática ou tecnológica resulta, por sua vez, do enfraquecimento ético-político das antigas mediações e do fortalecimento da midiatização (…) a tecnointeração toma o lugar da mediação, desviando os atores políticos da prática representativa concreta (norteada por conteúdos valorativos ou doutrinários) para performance imagística”. (SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho).

Cultiva-se na redes sociais um ódio diário, disperso, vazio. Foi este ódio que ganhou as ruas e que pretende enterrar 2,5 mil anos de história política.

Ressurge a democracia

“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.”

O Globo, 2 de abril de 1964

“A Palestina pertence aos palestinos, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses. É errado e desumano impor os judeus aos árabes”.
Mahatma Ghandi – Manifesto sobre os judeus na Palestina (1938)

Obama apoia estado palestino desmilitarizado nas fronteiras de 1967

Bullshit. Obama sabe estar lidando com fundamentalistas. Se necessário, matam pelas sagradas escrituras. “Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre (Gênesis 13:15)”.

A supremacia judaica é bíblica. Jacó já mostrava a que vinha quando surrou um anjo (Gênesis 32:24). Está nos subconsciente dos crentes, dos fãs da pop music. “Jacob wrestled the angel and the angel was overcome” (U2, Bullet the blue sky). O livro-referência do ocidente é a base sobre a qual se erigiu o Estado judeu no Oriente Médio em 1948, quando a ONU sequestrou dois terços da Palestina para abrigar Israel.

Hoje, mais de 80% da área está em poder dos israelenses, graças a ocupações militares e assentamento de colonos – ações que violam mais de 30 resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O ano de 67 a que se refere Obama marca a tentativa dos antigos proprietários de retomar à força suas terras. No fim, Israel venceu, anexando Gaza, Cisjordânia, as colinas do Golã (Síria) e o deserto do Sinai (Egito).

Conscientes de sua inferioridade bélica, os palestinos passaram a recorrer ao que se denomina terrorismo. Assim, o sul do Líbano, um dos suspostos focos terroristas, foi também invadido por Israel em 1978. Neste cenário nasceu a milícia islâmica Hizbollah (Partido de Deus, em árabe), constituído para livrar o Líbano do jugo israelense, aqueles que matam em nome do outro Deus, Javé.

Aparentemente cansado dos homens-bomba explodindo em seu país, o primeiro ministro israelense Yitzhak Rabin fechava, em 1993, um acordo com Yasser Arafat para a demarcação de um estado palestino. Rabin foi assassinado. Por um israelense. Israel não quer nada disso. Os EUA não querem nada disso.

Porque Israel é um inseticida eficaz numa área infestada de baratas muçulmanas, cheia de petróleo. Dois terços das reservas mundiais. Até que o ocidente mude de matriz enérgetica, nada mudará. Obama bem o sabe.

Por isso a instalação de um Estado judeu no coração da Palestina no pós-guerra. Por isso o repasse anual de US$4 bilhões dos Estados Unidos a Israel, que inclui o fornecimento de helicópteros, caças F-16 e mísseis de longo alcance. Por isso as falsas fronteiras impostas na região pelas nações hegemônicas – britânicos, franceses, norte-americanos -, baseados em seu etnocentrismo.

“Tudo o que se deve fazer é dizer às pessoas que elas estão sendo atacadas, denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e expor o país ao perigo”.
Hermann Göring, vice-chanceler de Adolf Hitler

1898, ano 1 do expansionismo. De olho no Caribe, os Estados Unidos da América passam a apoiar movimentos de independência em colônias espanholas locais, desafiando a rainha regente, Maria Cristina de Habsburgo-Lorena. Em meio à tensão, uma explosão afunda o couraçado Maine, ancorado na baía de Havana, matando 254 marinheiros norte-americanos a bordo.

A Espanha é responsabilizada. Habsburgo-Lorena, Bin Laden do século 19. O Congresso aprova a liberação de recursos para financiar a guerra. A Espanha é derrotada. Os EUA surgem como novos imperadores de Cuba e Antilhas. “Com o tempo veio a descobrir-se que a acusação contra o Império Espanhol de ter atacado o navio norte-americano era infundada, pois foram os próprios Estados Unidos que afundaram a embarcação com o objetivo de declarar a guerra”.*

1911. A comissão interna que apurava o caso Maine conclui que uma explosão “acidental” na sala de máquinas casou o naufrágio.

1915. A Primeira Guerra Mundial gera uma espécie de zona de exclusão entre Alemanha e Grã-Bretanha. Ignorando as advertências alemãs, o navio de passageiros RMS Lusitania deixa Nova York em 1º de maio, com destino a Liverpool.  1º de maio, Bin Laden. É torpedeado seis dias depois, na costa irlandesa, deixando quase 2 mil mortos. Um único torpedo, disparado por um submarino alemão, afundou o transatlântico em menos de 20 minutos.

Tio Sam, indignado, entra na guerra. Mais tarde, descobre-se, uma explosão no interior da embarcação causou o naufrágio. O rombo no casco era de dentro para fora. O Lusitania carregava armas e munição.

1941, Segunda Guerra Mundial. Os EUA, novamente, são expectadores, até que chega o 7 de dezembro. Dia da Infâmia. Num ataque aéreo, a marinha japonesa bombardeia a baía de Pearl Harbor, Havaí, base da frota norte-americana no Pacífico. Saldo: 2.500 mortos, entre militares e civis. Era o motivo para entrar no conflito, que ao final deixaria os EUA como potência capitalista soberana do pós-guerra.

O tempo corre, questionamentos surgem. Radares e sistemas de alerta teriam falhado justo naquele dia? Revela-se, então, que duas semanas antes do ataque, a espionagem ianque já interceptava mensagens em que o almirante japonês tratava do bombardeio a Pearl Harbor. Bin Laden de olhos puxados.

Anotações de 25 de novembro do secretário de defesa da Casa Branca: “Franklin D. Roosevelt afirmou que é muito provável que sejamos atacados já na próxima segunda-feira. Roosevelt interrogou-se: “a questão é como os manobrar de forma a que sejam eles a dar o primeiro tiro sem que isso constitua um perigo demasiado para nós. Não obstante o risco envolvido, contudo, em deixar os japoneses dar o primeiro tiro, chegamos à conclusão que para termos o total apoio do povo americano é desejável que asseguremos que sejam os japoneses a fazê-lo de forma que não restem quaisquer dúvidas no espírito de ninguém de quem foram os agressores”. **

O roteiro se repete em 1964, num falso ataque norte-vietnamita a dois destróieres norte-americanos, que culmina na invasão ao Vietnã comunista. Nas intervenções pela América Latina, contra a ameaça desse mesmo comunismo. Bin Laden de foice e martelo. Em 1991, na suposta defesa do Kuwait invadido que desencadeou a Guerra do Golfo, e 12 anos depois, no mesmo Iraque, para eliminar armas de destruição que nunca existiram.

11/09/2001. Um novo motivo para uma nova guerra. Um terrorista árabe, de dentro das cavernas do Afeganistão, coordena o maior ataque ao país mais poderoso e mais seguro do mundo. Requiescat in pace, Bin Laden. E que a história faça sua parte.

* Fernando Montiel. “Una hipótesis macabra: el autogolpe como mecanismo de política exterior”.

** Diário de Henry Stimson

 Foi num 20 de fevereiro, 1832.

O navio britânico H.M.S. Beagle ancorou no arquipélago de Fernando de Noronha, trazendo a bordo um ainda anônimo Charles Darwin. Aqui, no mesmo diário em que coletou informações para sustentar sua futura Teoria da Evolução, registrou impressões não menos reveladoras sobre aquele país quase recém-nascido.

Na manhã do dia 28, avistou a costa da Bahia. Encanto no pós-desembarque: “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o voo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, pode-se esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção”.

Em 4 de março, carnaval em Salvador, comentário breve sobre aquela sociedade escravista: “Não tenho dúvidas de que a atual situação da maioria absoluta da população escrava é muito mais feliz do que estaríamos previamente inclinados a crer. O interesse e qualquer bom sentimento que pudesse ter o proprietário acabariam por levar a isso. Mas é totalmente falso que nem um deles, mesmo entre os mais bem tratados, quer retornar a seu país. ‘Se apenas eu pudesse ver meu pai e minhas duas irmãs mais uma vez já ficaria feliz. Nunca consegui esquecê-los’.”.

O testemunho da escravidão marcou o naturalista. Mais tarde, em 1845, recusou um convite para ir aos Estados Unidos, anotando: “Agradeço a Deus nunca mais ter de visitar um país escravagista. Até hoje, quando ouço um grito distante, ele me faz lembrar com dolorosa vivacidade meus sentimentos, quando, passando em frente a uma casa próxima de Pernambuco*, eu ouvi os mais penosos gemidos, e não podia suspeitar que pobres escravos estavam sendo torturados. Perto do Rio de Janeiro eu morava em frente à casa de uma velha senhora que mantinha torniquetes de metal para esmagar os dedos de suas escravas. Eu fiquei em uma casa em que um jovem caseiro mulato, diariamente e de hora em hora, era vituperado, espancado e perseguido o suficiente para arrasar com o espírito de qualquer animal. Eu vi um garotinho, de seis ou sete anos, ser castigado três vezes na cabeça com um chicote para cavalo (antes que eu pudesse interferir) por ter-me servido um copo d’água que não estava muito limpo”.

 Em 1º de abril, chega ao Rio de Janeiro, aluga casa em Botafogo. No dia 6, conhece a burocracia nacional ao tentar obter um passaporte que o habilitaria a viajar pelo interior do Estado. “Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis suas pessoas, é quase intolerável”.

Após 3 meses no Rio, despede-se com o diagnóstico: “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer vantagem sobre os miseráveis e os pobres. Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem só uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem humorados enquanto isso não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não explosivos; satisfeitos com suas personalidades e seus hábitos, respondem a todos os comentários perguntando ‘por que não podemos fazer como fizeram nossos antepassados antes de nós?”.

Lá se vão quase dois séculos da passagem de Darwin por aqui. Nesse intervalo, compilou seus estudos e publicou A Origem das Espécies. O livro, até hoje considerado a maior ideia individual do pensamento humano, virou base da biologia, abalou o poder da Igreja (embora Darwin tenha evitado a todo custo esse confronto), desencadeou linhas e linhas posteriores de pesquisas, transformou toda uma concepção sobre a vida no planeta.

Mas teses existem para serem derrubadas. E a de Darwin pode cair por seus próprios apontamentos, feitos no trecho Bahia-Rio. Caso algum de seus seguidores decida reavaliar o Brasil partindo daquelas anotações, constatará: o brasileiro é espécie que não evolui.

* Recife, onde o Beagle atracou no regresso à Inglaterra