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Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi”.
(Tomasi di Lampedusa – Il Gattopardo, 1957)

Tabata-Ciro

Gênese

BH, 1966. Walfrido dos Mares Guia abre o cursinho pré-vestibular Pitágoras, que crescerá junto com seu fundador. Na década de 90, o Pitágoras será uma multinacional da Educação; Mares Guia, vice-governador de Minas Gerais.

Em 2002, já deputado federal, Mares Guia assume a campanha de Ciro Gomes à presidência da República. Ao fim da eleição, vira ministro do candidato vencedor, Lula. Durante o governo petista, o Pitágoras abre capital na Bolsa de Valores sob o nome Kroton Educacional, recebendo investimentos do megafundo Advent International, de P.P. Etlin.

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Ao Advent se juntarão outros gigantes da finança mundial: JP Morgan e Blackrock.

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Assessorada por Itaú e BTG Pactual, fundado por Paulo Guedes, a Kroton compra concorrentes e torna-se o maior grupo privado de Educação no país. Em apenas 5 anos, impulsionada por programas como Fies e Prouni, acumula lucro de 22.000%.

Em outra frente, o endividado Grupo Abril vende seu segmento de Educação ao fundo Tarpon em 2015. Associado ao Constellation de Jorge P. Lemann, o Tarpon passa a ser também proprietário da Saraiva. Surge o Somos Educação, comandado por Eduardo Mufarej.

Abril de 2018. O Grupo Kroton compra o Somos Educação. O cursinho da década de 60 é agora o maior conglomerado de ensino particular do mundo, administrando Saraiva, Scipione, Ática, Anglo, Bahema, Sigma.

Planejamento

Economia e Política são indissolúveis. Lemann quer formar líderes para o futuro, que possam “transformar o país atuando na política“. Para tal, banca a Fundação Lemann, célula-mãe da RAPS e do Lemann Fellowship, criado para mandar a Harvard “gente que, de volta ao Brasil, trabalhará, em sua maioria, em qualquer esfera do governo“. Abriga ainda o movimento Acredito, onde os jovens líderes têm predileção por Ciro Gomes.

Mufarej também acredita. Seu RenovaBr quer produzir políticos com “capacidade de liderar e mobilizar“. Quase emplacaram Luciano Huck, financiador do movimento, candidato a presidente em 2018. Huck era apoiado também por Lemann e Paulo Guedes. A candidatura não vingou, mas o Renova conseguiu eleger um grupo “afinado com a pauta econômica do governo“.

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Entre os afinados, a jovem Tabata Amaral, expressão perfeita das novas lideranças, produto de RAPS, Acredito e RenovaBr. Etlin e a Advent se limitam ao suporte financeiro.

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Apadrinhada por Ciro Gomes, turbinada pela mídia e apoiada pelo progressismo ingênuo, terá à disposição todas as lentes do país quando atacar um desavisado ministro da Educação que queria investigar os programas estudantis da Era Petista. O anúncio da investigação é um desastre para Kroton e cia.

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A nova liderança entra em ação. O ministro cai. A bolsa de valores volta à paz, os megafundos podem sorrir. Mídias de variadas orientações políticas avisam: há esperança.

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A eterna desilusão

A ilusão progressista morre neste agosto, quando Tabata vota pela aprovação da reforma de uma Previdência tornada deficitária pelo núcleo de forças que a pariu. Itaú, Pactual, JP Morgan e demais fundos de investimento são credores da dívida brasileira, o ralo do qual não se fala. Menos grana para aposentados, mais superávit primário, mais clientes na carteira.

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A jovem liderança faz parte do poder invisível. Uma das fundações de Lemann, a Estudar, hospedou o site Vem pra Rua, maestro das marchas de 2013. Seu líder, Rogério Chequer, atua com Mufarej no Ranking dos Políticos, dedicado à publicidade de congressistas alinhados ao grupo. O Blackrock é proprietário da Netflix, braço ideológico do golpe de 2016.

Tabata cumpriu seu papel no jogo. A roda gira.

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O progressismo ingênuo terá que depositar sua fé em outros rostos. Pode ser Glenn Greenwald, cujo portal ainda tenta preservar a imagem da deputada. Talvez porque o proprietário do Intercept seja também sócio de Lemann. Não importa. Sempre haverá mercado para a esperança.

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“A venda de participação da Petrobrás apenas tende a aumentar a tarifa de transporte a partir dos custos, e margens de lucro, dos compradores com atuação desintegrada. Para a estatal, os gasodutos já estavam amortizados, ou mais próximos da amortização. Os compradores terão que recuperar seus custos de capital na compra das participações da Petrobrás e esses custos serão repassados para as tarifas”.
(Abertura do Mercado e Preço de Gás Natural no Brasil – Associação dos Engenheiros da Petrobras, junho de 2019)

As primeiras reservas de gás natural documentadas são persas. 2 mil antes de Cristo. Chineses, gregos, hindus e colonos na América do Norte também adotaram-no como combustível. Em 1885, Robert Bunsen domou o gás ao criar o bico, possibilitando seu uso industrial.

Hoje, o gás responde por 25% da matriz energética mundial. É mais limpo em relação às principais fontes, petróleo e carvão. No Brasil, é só 10% da oferta energética. As reservas encontradas no pré-sal possibilitariam triplicar esse percentual.

O país precisa de gás, não só como fonte mais limpa, mas para produzir fertilizantes, fundamentais numa economia dependente da agricultura. Se não controla essa cadeia, precisa importar. Em 2018, fertilizantes foram o principal item nas importações de químicos: 65% do total – U$ 7,6 bilhões.

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Desde 2003, governos petistas adotaram políticas para coordenar extração, transporte e distribuição do gás, construir e ampliar a rede de gasodutos. De 2009 e 2017, a produção nacional saltou de 31,2 milhões de metros cúbicos por dia (MMc/dia) para 58,5 MMc/dia.

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Com as operações que culminaram no golpe de 2016, a Petrobras começou a abrir mão de participar dessa cadeia. Ainda no governo Dilma Rousseff, a Gaspetro foi vendida, sem holofotes, à Mitsui. Depois, as privatizações levadas a cabo por Michel Temer e Jair Bolsonaro continuaram reduzindo o papel do Estado.

Até 2015, os preços no mercado interno eram mais baixos.

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A venda dos ativos, combinada à subordinação aos acionistas e concorrentes, provoca uma disparada.

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A Escurial embarcou no otimismo desenvolvimentista da Era Petista. Estava instalada no terceiro maior produtor de gás da federação, com reservas ainda maiores, a serem anunciadas no curto prazo.

Da indústria local: “nos últimos anos, o preço da energia serviu de força contrária à expansão da indústria e da economia brasileira, dado que ele tem forte impacto sobre o custo operacional da empresa e sobre a produtividade”.

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O golpe quebrou a Escurial. A reação foi ínfima e infrutífera. Dívidas com a Mitsui e 600 demissões. Sadi Gitz ficou sem horizonte. O Brasil também.

 

“O sujeito fica abobado quando se depara com uma conspiração tão monstruosa, que não consegue acreditar que ela existiu”. J. Edgar Hoover – Elks Magazine, 1956.

Berlim, 1933
Parlamento alemão incendiado. Acusado pela justiça: Marius van der Lubbe, holandês membro do Partido Comunista. Julgado, foi condenado à morte. Hitler usou o incêndio para editar decreto “pela Proteção do Povo e do Estado (…) contra os atos de violência dos comunistas”, suspendendo liberdades individuais e civis.
Doze anos depois, durante o julgamento de Nuremberg, o general Franz Halder recordou Goering: “A única pessoa que sabe o que realmente se passou no Reichstag sou eu, pois coloquei fogo lá”. Ainda em Nuremberg, peritos mostraram que o fogo fora ateado com considerável quantidade de gasolina e substâncias químicas. Um homem só não poderia tê-lo iniciado.

Rio, 1937
O Exército comunica a descoberta de um plano para derrubar Getúlio Vargas. Documentos apreendidos pelos militares continham estratégias para cooptar operários e estudantes, libertar presos políticos, queimar casas e prédios públicos, assassinar autoridades civis e militares que se opusessem ao golpe. Decreta-se Estado de Guerra, suspende-se direitos constitucionais. Conspiradores são presos.
Oito anos depois, sem conseguir sustentar a versão do golpe, o general Góes Monteiro confessou: tal plano era de autoria militar, escrito pelo capitão Olímpio Mourão Filho, por determinação de Plínio Salgado.

Katyn, 1940
O governo soviético informa a morte de 22 mil poloneses, entre militares e civis, executados na floresta de Katyn, Rússia, pelo exército alemão. No ano seguinte, Josif Stalin declararia guerra ao Reich.
Em 1991, a Federação Russa apresentou documentos da polícia secreta soviética: os assassinatos foram decididos e executados pelo politburo de Stalin.

Europa, 1946
Tentando escapar do holocausto europeu, judeus lotam navios rumo à Palestina. As embarcações são bombardeadas. Os ataques são atribuídos a um grupo terrorista chamado ‘Defensores da Palestina Árabe’. Em 2010, o historiador Andrew Roberts publica MI6: The History of the Secret Intelligence Service 1909-1949. Nele, documentos do serviço secreto britânico detalham o planejamento dos ataques pelo Reino Unido. Os ‘Defensores da Palestina’ nunca existiram.

Guatemala, anos 40
Epidemia de sífilis na Guatemala de Juan José Arévalo, autor de reformas no país. Entre elas, a agrária. Em 2010, documentos encontrados na Universidade de Wellesley mostram que os vírus foram transmitidos por médicos do governo norte-americano, por inoculação direta ou usando prostitutas infectadas.

Golfo de Tonkin, 1964
Após entrar em águas vietnamitas, o destroier norte-americano USS Maddox foi atacado por torpedeiros locais. Escapou sem um arranhão, salvo pela força aérea ianque. Em resposta, os Estados Unidos declararam guerra ao Vietnã, iniciando o bombardeio a Hanoi. O ataque durou 18 anos, matando mais de 1 milhão de vietnamitas.
Mas antes que se declarasse cessar-fogo, Daniel Ellsberg, analista do Pentágono, entregaria aos jornais da casa os Pentagon Papers. Os documentos mostravam que os norte-americanos participavam de ações clandestinas contra o Vietnã desde 1954 e que o ataque ao Maddox não existiu.

Europa, anos 70
Atentados terroristas organizados por comunistas estouram por toda europa ocidental, empurrando os países para os braços da OTAN. Mortes em Milão, Bolonha, Madrid, Brabant, Munique. Em depoimento a um tribunal italiano, o general Gianadelio Maletti, ex-líder da contra-informação, revelou ter descoberto que explosivos usados nos atentados foram fornecidos pela Alemanha a um grupo terrorista italiano de direita, com suporte norte-americano. As operações stay-behind ficaram conhecidas como Gladio.

Estados Unidos da América, 2001
Envelopes contaminados com antraz são enviados a senadores, jornais e emissoras de TV, trazendo ameaças escritas por terroristas islâmicos ao destinatário. Na semana seguinte, o congresso aprovou o Patriot Act, autorizando agências governamentais a monitorar comunicações privadas sem prévia autorização judicial.
Nove anos mais tarde, o FBI admitiu que os envelopes foram enviados por Bruce Ivins, cientista militar a serviço do governo.

Venezuela, 2018
Caminhões transportando ajuda humanitária a venezuelanos famintos foram queimados na fronteira com a Colômbia. A imprensa informa que as forças de segurança leais ao presidente Nicolás Maduro foram responsáveis por incendiar os caminhões. Os EUA anunciam mais sanções contra a Venezuela.

If I’ve seen further than others, it’s by standing upon the shoulders of giants‘. (Newton)

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Havia mais estradas a percorrer. Mais histórias a se contar, mais gargalhadas que daríamos. Gargalhadas da sociedade ridícula em que vivemos, de nós mesmos. Coisas das quais nos lembraríamos em nossa velhice, distorcendo detalhes, já no fim de alguma dessas estradas.

Mas você escolheu não envelhecer. Se é que foi escolha. Foda-se. O que quer que tenha sido, foi sua. Respeito. Cabe-me agora recolher e carregar, sozinho, essa bagagem abarrotada de planos, mesmo sabendo que a maioria deles jamais deixaria de ser planos. Foda-se também. A diversão, afinal, era carregá-los, fingir que um dia cruzariam a fronteira da utopia.

Porque alguns deles ficaram pelo caminho, caíram em algum rio, foram levados por alguma ventania. Mas outros frutificaram. Permanecerão comigo por um bom tempo durante a caminhada. Em livros, discos, paisagens, rostos amigos, tudo o que você me proporcionou e que me cerca impiedosamente por todos os cantos de casa. Foi um privilégio partilhar deste lapso de tempo e espaço, um privilégio sem o qual eu seria infinitamente menor.

Por isto, uma parte de mim também morre. Um mapa a menos. Terei que dar meia volta e olhar pra trás todas as vezes em que me sentir perdido. Mas é preciso seguir caminhando. Afinal, aprendemos, para isto servem as utopias.

 

“Há três tipos diferentes de mente: um compreende as coisas por si só; o segundo compreende as coisas demonstradas por outrem; o terceiro nada consegue discernir, nem só, nem com a ajuda dos outros”. (Nicolau Maquiavel, O Príncipe)

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Pascal Rossignol/Reuters

Os irmãos Kouachi escondem seus rostos para a carnificina. Ato inédito para jihadistas. Alá não os reconhecerá. Tão inédito quanto deixar intactas as centenas de imagens ofensivas a Maomé armazenadas no arquivo de Charlie Hebdo. Teriam esquecido regras básicas para herdar as 72 virgens que os aguardam no paraíso?

O centro de Paris deve ser um dos lugares menos policiados do mundo. Dois atiradores encapuzados estacionam, descem do carro, entram num edifício carregando fuzis às 11 da manhã de um dia útil, atiram em uma dúzia de pessoas, voltam à rua desfilando suas armas por 20 minutos, gritando “vingamos Alá”, e disparando no ar sem serem incomodados.

Os Kalashnikov que usaram matam sem sequer espalhar sangue. Ou o tiro atinge só a calçada?

http://zeeklytv.com/video/13910/SLOW-MOTION-FAKE-PARIS-SHOOTING-MISS-7-1-15-FRENCH-SATIRE-YT-banned-with-120000-views

E o documento esquecido no carro? O documento, especificamente – não uma carteira –, que o terrorista fez questão de levar consigo, caso fosse parado por uma blitz no caminho. Protagonizam um massacre cinematográfico no centro de uma das maiores capitais do mundo com precisão militar, armamento de primeira, driblam toda a polícia parisiense, recolhem um tênis-evidência caído ao lado do veículo antes da fuga… mas esquecem o bilhete de identidade no carro.

Mesmo desfecho. Em Nova York, dois aviões colidiram com as torres do WTC, os prédios se incendiaram, janelas explodiram, o aço se derreteu, o concreto desmoronou, mas a polícia conseguiu encontrar, intactos, os passaportes dos pilotos terroristas.

Parte dos analistas/especialistas cogita que o documento pode ter sido deixado no carro de propósito, para que seus autores fossem reconhecidos e encontrados, sacrificando-se, aí sim, em nome de Alá. Depois de todos os disfarces e da fuga espetacular. Nenhum sentido.

“…a mídia age sobre o momento e fabrica coletivamente uma representação social que, mesmo quando está muito afastada da realidade, perdura apesar dos desmentidos ou das retificações posteriores (…) A atenção dos jornalistas está mais voltada para os confrontos que para a situação objetiva que os provoca”. (Pierre Bordieu, A Miséria do Mundo)

Tornamo-nos todos idiotas?

Ainda não. Kevin Barrett e o insuspeito Paul Craig Roberts andam desconfiados.

A verdade tardará a surgir, não haverá testemunhos. Os irmãos Kouachi foram mortos. A tropa de elite parisiense, especializada em operações extremas, não foi capaz de capturá-los vivos na tipografia onde se esconderam. Os suspeitos foram denunciados por um funcionário que, ao vê-los no recinto, se escondeu numa caixa de papelão e ficou ali, sem ser notado, enviando mensagens pelo celular à polícia.

Versões potencialmente conflitantes também estão descartadas. O policial que investigava do caso se suicidou menos de 24h após o ataque.

Déjà vu. Fizeram o mesmo o ex-piloto da CIA Phillip Marshall, o jornalista Michael Ruppert, o comandante Job W. Price, responsável pela captura de Bin Laden. No tocante ao terror islâmico, um mal acomete todos os que apresentam, ou podem apresentar, versões diferentes da oficial.

Teriam os franceses aderido ao False Flag Attack popularizado por alemães, utilizado em larga escala por norte-americanos e, de modo tacanho, pelo Brasil? Se a polícia vinha emitindo alertas, o Charlie Hebdo não seria um alvo provável? Se os Kouachi eram conhecidos e fichados, como se deslocaram com tanta facilidade por serviços imigratórios cada vez mais burocráticos, rigorosos, intimidadores?

Por que sempre a Al-Qaeda? Por que a encenação quase amadora?

Como usual em tempos de crise, a França engrossa o coro da União Europeia na busca de culpados. A nós, órfãos da verdade, cabe digerir o espetáculo midiático. Sétima pergunta do lide: quem se beneficia?

“As imagens da TV pretendem ser a metalinguagem de um mundo ausente (…) Por detrás do ‘consumo de imagens’, perfila-se o imperialismo do sistema de leitura: cada vez mais tende só a existir o que pode ler-se (o que deve ler-se: o lendário). E então já não se tratará da verdade ou da história do mundo, mas apenas da coerência interna do sistema de leitura”. (Jean Baudrillard, A Sociedade do Consumo)

O Partido dos Trabalhadores parece ter deslocado para sempre o PSDB do centro. No atual pleito, assemelhou-se ainda mais aos adversários, distanciando-se do debate ideológico, programático, atendo-se a mesquinharias próprias da sociedade do espetáculo reproduzidas no circo das eleições. Seguirá por mais 4 anos na gerência do capital.

Quanto durará esta estratégia? O PT teve papel fundamental na contenção da insafisfação popular predominante no fim da era FHC. Sem romper com o quadro institucional vigente, o pacto social acalmou banqueiros e miseráveis. Com políticas de valorização do salário e ampliação do crédito, estimulou o consumo e ajudou, junto com os vizinhos, tornar a América Latina uma espécie de UTI para o capital que agoniza no velho mundo. Passada uma década, o modelo dá sinais de esgotamento. As manifestações de junho sinalizam: o governo do pacto social não tem mais eficácia.

Em três mandatos os governos petistas conseguiram humanizar este capital, reduzindo a miséria e a mortalidade infantil a níveis jamais vistos em nossa história republicana moderna. Trouxeram, assim, a população mais pobre para dentro do círculo capitalista, do sistema bancário, do mundo dos cartões de crédito. O acesso, porém, veio desacompanhado de educação, das noções mais básicas de cidadania – que ainda permanecem estranhas a nós. Sem barreiras, a mercadoria despertou consumidores adormecidos, mercantilizou aspectos básicos de seu cotidiano, acentuou o individualismo, o conservadorismo. Venci por mim, não por uma política de Estado. A imagem do indivíduo com olhos vidrados em seu gadget, ignorando o entorno, seja talvez a mais fiel metáfora do brasileiro contemporâneo.

A boca da agiotagem internacional avança cada vez mais sobre nosso trabalho. No ano passado foram R$ 900 bilhões; neste, R$ 1 trilhão; em 2015, R$ 1,4 tri.

Fonte: Ministério da Fazenda

Fonte: Ministério da Fazenda

Ao contrário do que pregam os petistas, não há possibilidade de mudança do papel brasileiro no mundo sob este governo. Permaneceremos como colônia produtora de matéria-prima. Éramos vendedores de açúcar há 500 anos, somos vendedores de açúcar hoje. A única indústria que nos é permitida é aquela que não mais interessa ao chamado primeiro mundo, a automobilística.

O brasileiro convenceu-se de que democracia é digitar números em uma máquina a cada 2 anos. Descobrirá, cedo ou tarde, que foi enganado. Nunca estivemos tão longe do país com que sonhamos um dia. Ave, Furtado.

2007

2007

2013

2013

Uma vida termina. Outra começa. Uma nova terra, uma legião de peito aberto, disposta a refundar, reverter o legado de coronéis perversos. A luta desperta, porque, agora, há por que lutar. Sem pressa, sem rancor. Só esperança.

Esperança de que, algum dia, se condenará o tempo em que éramos indiferentes ao choro alheio. Um tempo em que se discriminava pela cor da pele, pela sexualidade, pela crença.

Ao olhar para trás, recordar-se-á com horror dos carros blindados, dos foros privilegiados, das fianças, dos votos secretos, dos camarotes vips, dos reis, rainhas, príncipes. Da importância que dávamos a nós mesmos. Porque, naquele tempo, nos acreditávamos especiais, feitos à imagem e semelhança de deuses imaginários, que costumávamos adorar.

A mudança virá pela compreensão universal de nossa insignificância enquanto unidades. Somos parte e só o todo faz algum sentido. A mudança virá porque, enfim, teremos resgatado e reaprendido a experiência transmitida através das gerações: nada muda automaticamente, nada muda se não mudarmos a nós mesmos.

Contemplaremos, então, o movimento do mar, o som do vento, dos pássaros, a placidez das árvores. Vivenciaremos melhor os sabores, os acordes, os abraços, os sorrisos.

Oxalá.

“Concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar a quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos seus descendentes”.
Romanus Pontifex, Papa Nicolau V, 8 de janeiro de 1454.

“… assim como são muitos, permitiu Deus que fossem contrários uns aos outros, e que houvesse entre eles grandes ódios e discórdias, porque se assim não fosse os portugueses não poderiam viver na terra nem seria possível conquistar tamanho poder de gente”.
Tratado da Terra do Brasil, Pêro de Magalhães Gândavo, 1565.

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor internacionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria”.
O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro, 1995.

“Quantos, não sei. Só sei que somos muitos – o desespero da dízima infinita. E que somos belos como deuses, mas somos trágicos”.
O Poeta, Vinícius de Moraes.


“Temos o direito de crer que ainda não é tarde demais para começar a criação da utopia contrária. Uma nova e arrasadora utopia de vida, onde ninguém possa decidir por outros até na forma de morrer, onde realmente seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham finalmente e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra”.
Discurso de Gabriel García Marquez ao receber o prêmio Nobel, 1982.

“…o episódio passou-se da maneira que vamos passar a explicar, por onde se verá que as frustradas tentativas a que nos referimos resultaram do insuficiente conhecimento que o dito criador tinha das temperaturas de cozedura.

Começou ele por fazer com barro uma figura humana, de homem ou de mulher é pormenor de somenos, meteu-a no forno e atiçou-lhe o necessário lume. Passado o tempo que lhe pareceu certo, tirou-a de lá, e, meu Deus, caiu-lhe a alma aos pés. A figura tinha saído negra retinta, nada parecida com a ideia que ele tinha do que deveria ser o seu homem. No entanto, talvez porque ainda estava em começo de actividade, não teve ânimo de destruir o falhado produto da sua falta de jeito. Deu-lhe vida, supõe-se que com um piparote na cabeça, e mandou-o embora.

Tornou a modelar outra figura, meteu-a no forno, mas desta vez teve o cuidado de se acautelar com o lume. Conseguiu-o, sim, mas demasiado, pois a figura apareceu-lhe branca como a mais branca de todas as coisas brancas. Ainda não era o que ele queria. Contudo, apesar do novo falhanço, não perdeu a paciência, deve mesmo ter pensado, indulgente, Coitado, a culpa não foi dele, enfim, deu também vida a este e pô-lo a andar.

No mundo havia já portanto um preto e um branco, mas o canhestro criador ainda não tinha logrado a criatura que sonhara. Pôs uma vez mais mãos à obra, outra figura humana foi ocupar lugar no forno, o problema, mesmo não existindo ainda o pirómetro, devia ser mais fácil de solucionar a partir d’agora, isto é, o segredo era não aquecer o forno nem de mais nem de menos, nem tanto nem tão pouco, e, sendo esta conta de três, deveria ser de vez. Não foi. É certo que a nova figura não saiu preta, é certo que não saiu branca, mas, oh céus, saiu amarela.

Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado à pressa um dilúvio para acabar com o preto e o branco teria partido o pescoço ao amarelo, o que até se poderia considerar como a conclusão lógica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta, Se eu próprio não sei fazer um homem capaz, como poderei amanhã pedir-lhe contas dos seus erros. Durante uns quantos dias o nosso improvisado oleiro não teve coragem de entrar na olaria, mas depois como se costuma dizer, o bichinho da criação tornou a entrar com ele e ao cabo de algumas horas a quarta figura estava modelada e pronta a ir ao forno.

Na suposição de que então houvesse acima deste criador outro criador, é muito provável que do menor ao maior se tivesse elevado algo assim como um rogo, uma prece, uma súplica, qualquer coisa no género, Não me deixes ficar mal.

Enfim, com mãos ansiosas introduziu a figura de barro no forno, depois escolheu com minúcias e pesou a quantidade de lenha que lhe pareceu conveniente, eliminou a verde e a demasiado seca, tirou de uma que ardia mal e sem graça, acrescentou de outra que dava uma chama alegre, calculou com a aproximação possível o tempo e a intensidade do calor, e, repetindo a imploração, Não me deixes ficar mal, chegou um fósforo ao combustivo.

Nós, humanos de agora, que temos passado por tantas situações de ansiedade, um exame difícil, uma namorada que faltou ao encontro, um filho que se fazia esperar, um emprego que nos foi negado, podemos imaginar o que este criador teria sofrido enquanto aguardava o resultado da sua quarta tentativa, os suores que provavelmente só a proximidade do forno impediu que fossem gelados, as unhas roídas até ao sabugo, cada minuto que ia passando levava consigo dez anos de existência, pela primeira vez na história das diversas criações do universo mundo ficou o próprio criador a conhecer os tormentos que nos aguardam na vida eterna, por eterna ser, não por ser vida.

Mas valeu a pena. Quando o nosso criador abriu a porta do forno e viu o que lá se encontrava dentro, caiu de joelhos extasiado. Este homem já não era nem preto, nem branco, nem amarelo, era, sim, vermelho, vermelho como são vermelhos a aurora e o poente, vermelho como a ígnea lava dos vulcões, vermelho como o fogo que o havia feito vermelho, vermelho como o mesmo sangue que já lhe estava correndo nas veias, porque a esta humana figura, por ser a desejada, não foi preciso dar-lhe o piparote na cabeça, bastou ter-lhe dito, Vem, e ela por seu próprio pé saiu do forno.

Quem desconheça o que se passou nas posteriores idades, dirá que, não obstante tal cópia de erros e ansiedades, ou, pela virtude instrutiva e educativa da experimentação, graças a eles, a história acabou por ter um final feliz.

Como em todas as coisas deste mundo, e certamente de todos os outros, o juízo dependerá do ponto de vista do observador. Aqueles a quem o criador rejeitou, aqueles a quem, embora com benevolência de agradecer, afastou de si, isto é, os de pele preta, branca e amarela, prosperaram em número, multiplicaram-se, cobrem, por assim dizer, todo o orbe terráqueo, ao passo que os de pele vermelha, aqueles por quem se tinha esforçado tanto e por quem sofrera um mar de penas e angústias, são, nestes dias de hoje, as evidências impotentes de como um triunfo pôde vir a transformar-se, passado tempo, no prelúdio enganador de uma derrota”.

José Saramago, A Caverna